Economia

Publicado em 26 de Fevereiro às 16:34:07

Superávit em Janeiro Não Alivia Desafio Fiscal de 2026

Em janeiro, o governo central registrou superávit primário de R$ 86,9 bilhões, resultado ligeiramente abaixo da expectativa do mercado (R$ 89,4 bilhões), mas próximo à nossa projeção (R$ 85,0 bilhões). Em termos reais, houve piora frente ao mesmo mês de 2025 (R$ 88,8 bilhões), refletindo crescimento mais intenso das despesas do que das receitas. Enquanto a receita líquida avançou 1,2% a/a (+R$ 3,3 bilhões), as despesas primárias totais cresceram 2,9% a/a (+R$ 5,3 bilhões). Mesmo com a sazonalidade favorável do início do ano, o ritmo de expansão do gasto sinaliza que o processo de consolidação fiscal segue desafiador.

Do lado das receitas, o desempenho foi marcado por forte heterogeneidade. As receitas administradas pela Receita Federal cresceram 3,7% a/a (+R$ 8,4 bilhões), impulsionadas sobretudo pelo Imposto de Renda, com destaque para o IR retido na fonte, beneficiado pelo avanço dos rendimentos do trabalho e do capital. Também contribuíram a elevação do IOF, em função do aumento de alíquotas, e outras receitas administradas. Em contrapartida, as receitas não administradas recuaram 18,9% a/a (-R$ 5,8 bilhões), refletindo principalmente a queda da arrecadação ligada à exploração de recursos naturais, em linha com o recuo do preço do petróleo em reais nos últimos doze meses.

Pelo lado das despesas, os principais vetores de alta foram os benefícios previdenciários (+5,3% a/a ou +R$ 4,0 bilhões), influenciados pela política de valorização do salário-mínimo e pela expansão do número de beneficiários, e as despesas com pessoal e encargos sociais (+10,3% a/a ou +R$ 3,3 bilhões), refletindo reajustes ao funcionalismo. Essas pressões foram parcialmente compensadas pela queda nos gastos com abono e seguro-desemprego (-27,1% a/a) e pela retração das despesas discricionárias do Executivo, com destaque para a redução nos desembolsos com o Bolsa Família.

O resultado reforça nossa avaliação de que o ajuste fiscal segue excessivamente dependente do desempenho da arrecadação, especialmente de rubricas menos sensíveis ao ciclo econômico. Esse quadro tende a manter elevado o grau de incerteza fiscal, cenário que deve ganhar complexidade adicional com a aproximação das eleições presidenciais.

Mesmo com o cumprimento formal da meta em 2025 – viabilizado pela exclusão de R$ 48,7 bilhões do cálculo – projetamos déficit primário de R$ 69,6 bilhões em 2026 (-0,52% do PIB), o que exigiria esforço adicional de aproximadamente R$ 12 bilhões para alcançar o limite inferior da meta de resultado zero. Assim, esperamos que o debate fiscal nos próximos meses continue concentrado em medidas de aumento de arrecadação, sem mudanças estruturais relevantes pelo lado das despesas.

Acesse o disclaimer.

Leitura Dinâmica

Recomendações