A semana foi de descolamento entre o Brasil e o mundo. As bolsas americanas renovaram máximas e a tese de inteligência artificial voltou a ganhar tração, com a tecnologia à frente da recuperação. O ouro renovou máxima histórica, puxado pela demanda de bancos centrais. Já o Ibovespa andou na direção oposta e fechou o período em queda. O eixo global continuou sendo o petróleo, que oscilou ao sabor das negociações em torno do Estreito de Ormuz e recuou de forma acentuada. Esse recuo aliviou a inflação lá fora, no entanto o benefício não chegou por inteiro aos ativos domésticos.
No Brasil, o Copom promoveu mais um corte na Selic, o quarto seguido. Ainda assim, o comunicado veio mais enxuto e foi lido como levemente duro, sem compromisso com os próximos passos. Como resultado, a curva de juros voltou a inclinar, com a ponta curta ancorada e os vértices longos subindo. Também pesaram um leilão robusto do Tesouro e o ruído fiscal, diplomático e eleitoral. O dólar oscilou perto de R$ 5,10, sustentado pelo carrego, enquanto o fluxo estrangeiro seguiu indeciso. A leitura da casa resume o momento, o mercado compra Brasil, mas cobra prova.
Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)
Entre os destaques positivos, a saúde defensiva liderou. Fleury e RaiaDrogasil subiram com força após resultados trimestrais acima das estimativas, o que reforça a preferência por receita previsível num ambiente de juro alto. Por sua vez, a Embraer avançou com a aprovação de financiamento público para a exportação de aviões. Gerdau se destacou com um resultado forte puxado pela operação americana. Essa operação hoje responde pela maior parte do lucro e abre espaço para reprecificação frente às concorrentes lá fora. Ao final do período, Localiza reverteu prejuízo e voltou ao lucro, em sinal de virada operacional.
Do lado negativo, a temporada de balanços separou qualidade de alavancagem. Marcopolo despencou com margem comprimida por mix de produtos e efeito cambial, e Magazine Luiza caiu forte após número abaixo do esperado. Renner, Porto Seguro e Smart Fit recuaram com resultados decepcionantes, enquanto CSN foi penalizada por rebaixamento de nota de crédito e minério fraco. A Petrobras cedeu na semana acompanhando o petróleo, mesmo tendo divulgado Ebitda muito acima do ano anterior e uma remuneração bilionária aos acionistas. No entanto, Banco do Brasil e Bradesco sofreram com balanços marcados por deterioração da qualidade dos ativos.
Macro & Política
No exterior, a semana confirmou a volta do apetite ao risco depois da correção de julho. A tese de inteligência artificial recuperou fôlego, com as gigantes de tecnologia à frente da retomada. Mas o petróleo voltou a funcionar como pêndulo. Cada sinal de acordo em torno do Estreito de Ormuz derrubava o barril e fechava as curvas de juros globais. Cada reescalada devolvia o prêmio de risco geopolítico. O ouro em máxima histórica reflete a procura por proteção contra o risco fiscal americano, num movimento estrutural, não de pânico.
Os dados de atividade vieram fracos dos dois lados. Nos Estados Unidos, a criação de vagas no setor privado decepcionou. Assim, as atenções se voltaram para o relatório oficial de emprego, o catalisador capaz de redefinir as apostas sobre o banco central. No comando da autoridade monetária americana, o discurso seguiu duro, com disposição declarada de elevar juros caso a inflação não ceda. No Brasil, a produção industrial recuou de forma expressiva, no pior resultado em anos, e o mercado de trabalho perdeu tração.
No campo doméstico, o Copom entregou o corte esperado, mas foi a comunicação que dominou as atenções. Em paralelo, o quadro fiscal seguiu no radar. A dívida pública em patamar elevado e a principal taxa de referência do banco de fomento acima de um marco histórico reacenderam o debate sobre ajuste. A temperatura política também subiu, com pesquisas eleitorais que apontam disputa apertada e uma crise diplomática com os Estados Unidos. O país revogou o visto de uma diplomata brasileira e sinalizou novas sanções, e a escolha do vice de um dos principais candidatos frustrou parte das expectativas do mercado.
Desempenho do Real (BRL)
O real fechou a semana perto da estabilidade, com o dólar oscilando ao redor de R$ 5,10. A moeda chegou a testar patamar mais fraco no meio do período, quando a ameaça de novas sanções americanas pesou sobre os ativos locais. Mesmo assim, devolveu boa parte dessa pressão ao final.
O carrego permaneceu como a principal sustentação da moeda, com o juro elevado a atrair fluxo de rendimento. Enquanto isso, o índice do dólar operou fraco no exterior. Pelo lado dos fundamentos, a balança comercial registrou superávit robusto. O Banco Central atuou com rolagem de swaps cambiais, o que conteve movimentos mais bruscos.
Curva de Juros
A curva de juros brasileira inclinou ao longo da semana. O corte da Selic manteve a ponta curta ancorada, mas os vértices médios e longos abriram. A pressão veio de um leilão de prefixados maior que o usual, num período de menor participação de intermediários. Somou-se a isso a leitura mais dura do comunicado do Copom.
O mercado passou a debater se o ciclo de cortes terá continuidade ou uma pausa na próxima reunião do Copom. A projeção para a Selic ao fim do ano recuou com a melhora do quadro inflacionário. Ainda assim, a ponta longa segue refém do fiscal. Por isso, o mercado aguarda o vultoso vencimento de títulos indexados à inflação previsto para meados de agosto.
Fluxo Investidor Estrangeiro
O fluxo estrangeiro permaneceu indeciso. Depois de um julho de entradas seletivas, concentradas em Petrobras, bancos e exportadoras, o início de agosto trouxe saídas pontuais. O acumulado mensal na bolsa ficou levemente negativo. Por enquanto, sem sinalização mais clara de direção, o capital externo tende a manter o Ibovespa lateralizado, à espera de gatilhos domésticos mais firmes.
Narrativas & Cenários
O principal embate das próximas semanas é se o Copom encerrou o ciclo ou apenas ganhou tempo. O comunicado enxuto devolveu ao banco central a flexibilidade para reagir aos dados. De um lado, a atividade fraca argumenta por mais cortes; de outro, o fiscal deteriorado e as expectativas de inflação ainda resistentes pedem cautela. O mercado deve forçar essa resposta antes da reunião de setembro.
No médio prazo, o Brasil continua barato, mas dependente de seletividade. O posicionamento institucional permanece defensivo e concentrado em qualidade. A preferência recai sobre caixa remunerado e renda fixa, enquanto o juro real elevado competir de igual para igual com a bolsa. Dessa forma, a parcela em ações fica reservada a setores de receita previsível e geração de caixa presente. É uma estrutura desenhada para um regime de custo de capital mais alto, não para a euforia que o antecedeu.
A agenda concentra os próximos testes. Lá fora, a inflação ao consumidor americana deve calibrar as apostas sobre o banco central. Aqui, o vencimento de um grande lote de títulos públicos em meados de agosto será o teste da ponta longa da curva. Enquanto isso, a continuidade da temporada de balanços e os desdobramentos da tensão diplomática com os Estados Unidos seguem no radar. O petróleo, como na semana que passou, deve continuar a ditar o humor global.
