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Publicado em 14 de Agosto às 22:39:13

Expresso Bolsa Semanal: Risco Eleitoral Descola o Brasil, Prêmio Fiscal e Fuga de Estrangeiros

A semana foi de descolamento agudo entre o Brasil e o resto do mundo. Lá fora, o ambiente melhorou. Os índices americanos renovaram máximas históricas, com o S&P 500 batendo recorde, porque os dados de inflação ao consumidor e ao produtor vieram benignos e afastaram o temor de nova alta de juros nos Estados Unidos. Esse alívio, em outros tempos, puxaria os emergentes junto. Mas ele não chegou à bolsa brasileira. As commodities lideraram o desempenho global do período e o ouro seguiu firme, enquanto o Ibovespa acumulou a oitava queda diária consecutiva. A sequência é rara neste século, e o índice encerrou a pior semana em meses.

No mercado local, o problema teve origem própria. O prêmio de risco eleitoral e fiscal virou o preço dominante dos ativos brasileiros, e o gatilho da semana foi o estrangeiro. Um grande banco de investimento global reduziu a recomendação da bolsa brasileira de compra para neutra. Logo depois, outra casa global retirou o real de sua cesta preferida de moedas emergentes. Ambos citaram a proximidade das eleições. Como resultado, houve uma fuga de capital externo no maior ritmo desde 2021, que empurrou o dólar para perto de R$ 5,22. Os juros longos, por sua vez, voltaram a abrir na contramão do mundo. Pesquisas com o atual presidente à frente e uma temporada de balanços fraca completaram o quadro de cautela.

Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)

A dispersão foi enorme, e a semana premiou caixa, petróleo e execução. A MRV liderou os ganhos, porque entregou a margem bruta no Brasil no maior nível em sete anos. O mercado, então, tratou as baixas contábeis da operação americana como não recorrentes. A Embraer manteve forte momentum de compra. Já Petrobras, PRIO e PetroReconcavo subiram no embalo do petróleo elevado. A PRIO, inclusive, entregou o melhor resultado do setor, com geração de caixa recorde e recompra relevante de ações. Santander e Suzano também fecharam no azul, esta última com geração de caixa robusta no trimestre.

Do lado negativo, o castigo foi seletivo e ligado a crédito e qualidade de resultado. A Hapvida despencou, pois reportou um balanço pior que o temido, com piora da sinistralidade e avanço da judicialização na saúde. A Braskem afundou diante do risco concreto de recuperação judicial até o fim do mês, já que a controladora recusou novo aporte. O Banco do Brasil caiu porque a inadimplência do cartão dobrou em um único trimestre e o crédito no agronegócio se deteriorou. A Sabesp, por sua vez, recuou no primeiro resultado fraco após a privatização. Localiza, Renner e Magazine Luiza completaram as perdas, num reflexo do varejo pressionado pelo consumidor endividado.

Macro & Política

No exterior, os dados vieram a favor de quem aposta em juros parados nos Estados Unidos. A inflação ao consumidor ficou em linha e a inflação ao produtor veio abaixo do esperado. Enquanto isso, as vendas no varejo e a confiança do consumidor decepcionaram, num sinal de que o consumo perde força. Por isso, o cenário de base passou a ser de manutenção dos juros na reunião de setembro. Boa parte do mercado, então, já projeta estabilidade até o fim do ano.

Ainda assim, o prêmio fiscal segue no comando das pontas longas. O Tesouro americano pagou a maior taxa em título de trinta anos em mais de duas décadas, e o custo anual da dívida atingiu recorde. Isso alimenta a leitura de dominância fiscal, na qual a autoridade monetária americana perde graus de liberdade. É esse prêmio que retira do Brasil o vento de cauda que um banco central americano menos restritivo normalmente traria.

No Brasil, o fiscal e a eleição dominaram a narrativa. A inflação ao consumidor de julho veio abaixo do teto da meta, depois de dois meses de estouro. A ata da autoridade monetária manteve o viés de um corte em setembro antes de uma pausa. Mesmo assim, a inflação de serviços resiliente e o crédito ainda aquecido limitam a convicção sobre o ciclo. No campo político, a semana teve o registro de candidatura da oposição, com um plano ancorado em disciplina fiscal. Somaram-se novas pesquisas com o atual presidente na dianteira, que ampliam o risco eleitoral. Entrou também o início de um processo de reciprocidade comercial com os Estados Unidos, camada adicional no prêmio de risco local.

Desempenho do Real (BRL)

O real ficou entre as piores moedas emergentes da semana. Partindo da região de R$ 5,11, o dólar emendou altas consecutivas e encostou em R$ 5,22. O movimento foi nitidamente descolado do dólar global, que oscilou perto da estabilidade. Ou seja, a moeda brasileira andou na direção oposta ao alívio externo, sinal de que o preço aqui é local.

A explicação foi idiossincrática. A saída de estrangeiros da bolsa e o desmonte de apostas compradas no real via carrego pesaram mais que o diferencial de juros. Diante disso, a decisão de casas globais de reduzir Brasil e retirar o real da cesta de carry reforçou a pressão. O Banco Central ofertou a rolagem integral dos swaps cambiais, mas o humor seguiu dominado pela antecipação do risco eleitoral.

Curva de Juros

A curva local inclinou ainda mais, no movimento que melhor define o momento. Os vértices curtos ficaram praticamente estáveis, ancorados na expectativa de um corte da Selic em setembro. Enquanto isso, o miolo e a ponta longa abriram com força e acumularam alta expressiva na semana.

O recado é claro. O prêmio exigido para emprestar ao Brasil no longo prazo é fiscal e político, não monetário. Mesmo com a inflação corrente comportada e com os juros americanos cedendo após os dados benignos, o juro longo brasileiro subiu na contramão do mundo. O movimento reflete dúvidas sobre a trajetória da dívida pública e o risco eleitoral que se aproxima.

Fluxo Investidor Estrangeiro

O fluxo foi o fio condutor da semana. A saída de capital externo da bolsa acelerou, e o acumulado do mês virou fortemente negativo. Boa parte se concentrou nos últimos pregões, e um único dia registrou a maior retirada desde 2021. O acumulado do ano ainda é positivo. Mesmo assim, o movimento recente inverteu o sinal de curto prazo e serviu de estopim para a queda do Ibovespa e a alta do dólar, porque o investidor global reduz posição em Brasil às vésperas do calendário eleitoral.

Narrativas & Cenários

A tensão central da próxima semana é uma só. Trata-se de saber se o prêmio de risco eleitoral e fiscal já embutido nos preços é suficiente ou se ainda há reprecificação pela frente. O Ibovespa chega a oito quedas seguidas, com sinais técnicos de possível fundo. Por isso, a dúvida é se o exagero recente abre espaço para um respiro ou se o fluxo vendedor continua no comando.

No médio prazo, a leitura da casa segue defensiva e paciente. Ela privilegia caixa remunerado e proteção cambial, em linha com o posicionamento vigente da carteira recomendada, enquanto os gatilhos domésticos não se materializam. A bolsa está barata quando se olha o preço contra o lucro. Contudo, preço baixo sozinho não tem sido gatilho sem uma âncora fiscal crível.

À frente, o calendário concentra as respostas. Primeiro, novas pesquisas eleitorais e os lançamentos formais de candidatura no fim de semana. Depois, o envio do Orçamento com o mecanismo de limitação de despesas até o fim do mês. Somam-se o prazo da Braskem para evitar a recuperação judicial e a decisão de juros de setembro. São esses eventos, e não o alívio externo, que devem determinar o humor com o Brasil nas próximas semanas.

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