A ata do Copom divulgada hoje trouxe um tom levemente mais dovish em relação ao comunicado da última reunião, ainda que preserve uma mensagem de cautela na condução da política monetária. Em nossa leitura, o documento evidencia maior convicção do comitê de que a atividade econômica segue em trajetória de desaceleração, ainda que tenha apresentado algum ganho de fôlego no primeiro trimestre. O diagnóstico central permanece de crescimento positivo em 2026, em linha com um cenário de moderação gradual, sem ruptura mais abrupta do ciclo.
Apesar do balanço de riscos seguir formalmente classificado como neutro, a ata traz elementos que sugerem uma inclinação marginalmente altista. Em particular, a preocupação com a desancoragem das expectativas – inclusive em horizontes mais longos, como 2028 – reforça a leitura de que o comitê permanece atento aos riscos inflacionários. Esse ponto é relevante, sobretudo em um contexto em que o ciclo de afrouxamento monetário ocorre com inflação ainda pressionada e expectativas distantes da meta, o que exige maior parcimônia na condução dos próximos passos.
No que diz respeito à extensão do ciclo, a ata não trouxe mudanças relevantes em relação à sinalização anterior. O comitê reiterou que a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão definidas ao longo do tempo, mantendo a flexibilidade para ajustar o ritmo conforme a evolução dos dados. Essa abordagem reforça o caráter data-dependent da política monetária neste momento, sem compromissos explícitos com trajetórias pré-definidas para a taxa de juros.
Nesse contexto, avaliamos que a ata abre espaço tanto para a continuidade quanto para uma eventual interrupção do ciclo de afrouxamento, a depender do comportamento da inflação e da atividade nos próximos meses. Embora o documento não sinalize de forma clara um corte na próxima reunião, seguimos entendendo que, sob um cenário de arrefecimento gradual da atividade e perda de fôlego dos núcleos de inflação, o cenário base ainda contempla reduções adicionais da Selic.
Por fim, mantemos nossa expectativa de cortes graduais ao longo do ano, com reduções de 25 bps por reunião, levando a taxa Selic para 13,25% ao final de 2026. Esse cenário pressupõe alguma normalização do ambiente externo – incluindo arrefecimento das tensões no Oriente Médio – e continuidade do processo de desaceleração doméstica, elementos fundamentais para viabilizar a convergência da inflação à meta.
