Economia

Publicado em 17 de Junho às 20:04:00

BCs divergem em comunicados na Super Quarta

O Federal Reserve manteve a Fed Funds rate inalterada no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano, em decisão amplamente esperada pelo mercado. A manutenção reflete um cenário ainda adverso para a convergência da inflação à meta, marcado por resiliência da economia americana, incertezas ligadas ao conflito no Oriente Médio e riscos de maior persistência nas aberturas mais inerciais da inflação. A decisão foi unânime, sugerindo que Kevin Warsh conseguiu construir consenso em sua primeira reunião à frente do Fed.

O principal destaque da decisão foi a mudança relevante na comunicação. O comunicado veio significativamente mais enxuto, sem sinalizações explícitas sobre os próximos passos da política monetária, em linha com as críticas recentes de Warsh à comunicação excessiva do Fed. Ainda assim, a mensagem foi claramente hawkish: o Comitê caracterizou a economia como resiliente, reconheceu a inflação ainda elevada e reforçou de forma categórica o compromisso com a estabilidade de preços.

A tabela de projeções reforçou esse viés mais duro. A mediana das projeções para a Fed Funds rate ao final de 2026 subiu de 3,4% para 3,8%, deslocando a expectativa do Comitê de um corte para uma alta de 0,25 p.p. ao longo do ano. O dot plot mostrou uma diretoria dividida, mas com assimetria relevante para alta: 9 dirigentes projetam ao menos uma elevação de juros em 2026, enquanto apenas 1 enxerga espaço para cortes.

Em nossa avaliação, a reunião marcou uma mudança importante na função de reação do Fed, com maior ênfase na recomposição da credibilidade e na convergência da inflação à meta. Reconhecemos, portanto, um risco relevante de alta de juros nas próximas reuniões, mas mantemos, por ora, a expectativa de estabilidade da taxa americana ao longo de 2026, condicionada principalmente à evolução das negociações no Oriente Médio e seus impactos sobre commodities e expectativas.

No Brasil, a redução da taxa de juros para o patamar de 14,25% a.a., com um corte de 0,25 p.p., por si só não caracteriza um movimento mais dovish. A justificativa para esse corte, porém, sim.

Em nossa avaliação, o comunicado trouxe pontos que sugeiriam uma postura mais dura por parte do BCB, assim como as revisões para cima das projeções para 2026, 2027 e 2028. No entanto, um ponto chamou atenção: a rolagem do horizonte relevante para o primeiro trimestre de 2028. Apesar de o comunicado mencionar que a projeção de inflação nesse horizonte subiu de 3,5% a.a. para 3,7% a.a., a justificativa para o corte se apoiou na avaliação de que a inflação convergiria para a meta no primeiro semestre de 2028. Isso sugere uma postura mais dovish, uma vez que o Comitê optou por cortar juros mesmo com a projeção no horizonte relevante 0,7 p.p. acima da meta.

Apesar disso, o comunicado também adicionou um risco altista, ao reconhecer os estímulos fiscais como um potencial canal de enfraquecimento dos mecanismos usuais de transmissão da política monetária. Além disso, foram incorporados riscos associados aos efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia.

Acesse o disclaimer.

Leitura Dinâmica

Recomendações