Economia

Publicado em 02 de Junho às 15:58:53

EUA propõem tarifa de 25% ao Brasil, mas impacto econômico tende a ser limitado

O governo Trump concluiu a investigação conduzida pelo USTR sob a Seção 301 e propôs a aplicação de uma tarifa de 25% sobre parte das importações brasileiras. A investigação, aberta em julho de 2025, avaliou práticas brasileiras em frentes como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal, sob a alegação de que essas políticas restringiriam ou onerariam o comércio americano. A proposta ainda passará por consulta pública e audiência antes da recomendação final, mantendo algum espaço para ajustes na calibragem das medidas.

Apesar do impacto potencialmente negativo sobre setores específicos, a proposta veio acompanhada de uma lista ampla de exclusões, o que reduz significativamente o risco macroeconômico para o Brasil. Ficariam de fora itens relevantes da pauta exportadora brasileira para os EUA, como carne bovina, café, energia, terras raras, alguns metais, aeronaves e partes aeronáuticas, além de frutas, produtos farmacêuticos, químicos orgânicos, fertilizantes, petróleo e derivados. Em nossa avaliação, essa composição sugere que a medida foi desenhada para elevar a pressão comercial sobre o Brasil, mas preservando insumos estratégicos para a economia americana e evitando choques mais relevantes de abastecimento.

Nesse sentido, os efeitos econômicos diretos tendem a ser limitados, sobretudo porque parte relevante dos principais produtos brasileiros exportados aos EUA foi preservada. O impacto deve se concentrar em segmentos não isentos e em eventual aumento de incerteza para empresas com maior exposição ao mercado americano. Ainda assim, a exclusão de itens de maior peso reduz a probabilidade de um choque relevante sobre balança comercial. A proposta também aparece como uma tentativa de recompor parte da agenda tarifária americana após decisões judiciais que limitaram instrumentos anteriores usados pelo governo Trump, reforçando o uso da Seção 301 como alternativa jurídica para sustentar medidas comerciais direcionadas.

O canal político, contudo, pode ser mais relevante do que o econômico. A retomada da narrativa de interferência externa e de ameaça à soberania tende a reacender um tema sensível no debate doméstico, especialmente após a experiência do ano passado, quando a imposição de tarifas de 50% contra produtos brasileiros gerou desgaste político. A recente visita de Flávio Bolsonaro a Donald Trump, registrada publicamente pelo presidente americano, deve aumentar a politização do tema no Brasil e pode ser explorada pelo governo Lula como evidência de proximidade entre a oposição e uma medida percebida como prejudicial ao país.

Em síntese, avaliamos que a nova proposta tarifária dos EUA representa mais um vetor de ruído político do que um choque econômico relevante para o Brasil, dada a abrangência das exclusões e a preservação dos principais itens da pauta exportadora. Ainda assim, o episódio tende a reforçar a polarização do debate eleitoral, com potencial impacto sobre a campanha de Flávio Bolsonaro caso a narrativa de alinhamento com Trump e de prejuízo aos interesses brasileiros ganhe tração.

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