Em fevereiro, o deflator do consumo pessoal, métrica de inflação mais acompanhada pelo Federal Reserve, veio novamente em nível desconfortável. O índice cheio avançou 0,38% m/m, em linha com o consenso de mercado, mas acima da nossa projeção de 0,32% m/m. Em 12 meses, houve desaceleração apenas marginal, de 2,83% a/a para 2,80% a/a. Já o núcleo do PCE, que exclui alimentos e energia, subiu 0,37% m/m, praticamente repetindo a leitura de janeiro e também ficando acima da nossa expectativa. Na métrica interanual, o núcleo desacelerou de 3,05% a/a para 2,97% a/a. Em resumo, embora o dado tenha vindo próximo do esperado pelo mercado, tanto o cheio quanto o núcleo seguem rodando em ritmo incompatível com uma inflação anualizada de 2,0%.
A composição do indicador voltou a mostrar uma divergência importante entre bens e serviços. A inflação de bens acelerou fortemente, saindo de 0,05% m/m para 0,74% m/m, com contribuição tanto dos bens não duráveis quanto dos duráveis. Esse movimento sugere que parte das pressões observadas ao nível do produtor por conta das tarifas de importação já começou a ser repassada ao consumidor final em fevereiro. Por outro lado, a inflação de serviços desacelerou de 0,42% m/m para 0,22% m/m, trazendo um sinal mais benigno na margem para a dinâmica subjacente. Na leitura em 12 meses, isso se traduziu em aceleração da inflação de bens, de 1,29% a/a para 1,80% a/a, e desaceleração da inflação de serviços, de 3,53% a/a para 3,26% a/a.
O problema é que o balanço de riscos para a inflação de curto prazo voltou a piorar. Além dos repasses das tarifas de importação, o conflito no Oriente Médio elevou os preços de energia e adicionou uma nova fonte de pressão inflacionária para a economia americana. Ainda assim, avaliamos que esses vetores podem perder força no médio prazo, permitindo a retomada de um processo de desinflação mais consistente, especialmente se a melhora recente dos componentes mais inerciais, como serviços e habitação, ganhar tração. Nesse cenário, ainda haveria espaço para o Fed voltar a cortar juros no fim do ano, mas essa possibilidade depende cada vez mais de uma dissipação dos choques recentes derivados do conflito no Oriente Médio.
A ata do FOMC reforça justamente essa leitura de maior cautela. O comitê reconheceu que ainda é cedo para avaliar os efeitos do conflito sobre a economia dos EUA, mas a discussão mostrou uma autoridade monetária menos confiante na necessidade de cortes iminentes. Muitos participantes afirmaram que os juros só deverão cair se a inflação evoluir de acordo com o esperado, enquanto alguns já empurraram o timing de flexibilização mais para frente diante das leituras recentes. A grande maioria avaliou que o progresso rumo à meta de 2% pode ser mais lento do que se imaginava e que aumentou o risco de a inflação permanecer acima da meta por mais tempo. Em síntese, a combinação entre inflação ainda resistente, choque de energia e incerteza geopolítica reforça a perspectiva de manutenção dos juros no curto prazo e torna a condução da política monetária ainda mais desafiadora para o Fed.
