O IPCA de abril registrou alta de 0,67% m/m, ligeiramente acima da nossa projeção, de 0,65% m/m, e em linha com as expectativas de mercado. O desvio em relação à nossa estimativa foi pequeno, mas a composição do dado reforça uma mensagem mais negativa. Esta é a terceira leitura consecutiva apontando alguma deterioração na dinâmica inflacionária de curto prazo, movimento que já havia sido mencionado pelo Banco Central em seu último comunicado. E nos 12 meses a inflação roda no patamar de 4,39%.
O principal ponto de atenção está na disseminação da pressão entre os preços livres, que refletem tanto a demanda agregada quanto os custos de produção. Alimentação no domicílio veio bem mais forte do que as coletas sugeriam, com itens relevantes surpreendendo tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo. Ao mesmo tempo, os bens industriais voltaram a ficar acima do esperado, reforçando que a pressão não ficou concentrada em apenas um grupo.
Em serviços, a leitura agregada veio mais próxima do esperado, mas ainda com sinais desconfortáveis em itens importantes. Os serviços intensivos em trabalho seguem rodando em patamar elevado, ainda sem mostrar uma convergência mais clara para baixo. Esse ponto é relevante porque continua indicando que a inflação mais ligada à demanda doméstica e ao mercado de trabalho permanece resistente.
A boa notícia da leitura ficou concentrada em gasolina, que veio menos pressionada do que o esperado e evitou um número cheio ainda mais alto. Esse ponto importa, porque a meta de inflação é definida sobre o IPCA cheio. Ainda assim, para a condução da política monetária, a composição do índice também é relevante. O ponto de partida atual exige cautela, porque a inflação já parte de uma composição pouco confortável e relativamente vulnerável a choques negativos de oferta, algo que tem sido frequente nos últimos anos.
Olhando para o segundo semestre, a guerra adiciona um viés altista relevante, principalmente via petróleo, fretes, insumos e custos de cadeia de produção. Mas isso não significa que o cenário esteja fechado em uma direção totalmente negativa. O câmbio pode atuar como um amortecedor importante caso siga mais favorável, compensando parte da pressão externa sobre custos. Em outras palavras, o balanço de riscos piorou, mas ainda existe uma disputa entre vetores altistas e baixistas.
