A evolução recente do conflito no Oriente Médio sugere uma melhora apenas marginal no balanço de riscos, sem que ainda seja possível caracterizar uma desescalada efetiva. Embora tenham surgido sinais de avanço nas tratativas entre Estados Unidos e Irã, incluindo a possibilidade de extensão do cessar-fogo por 60 dias e de reabertura gradual do Estreito de Ormuz, a ausência de um acordo formal mantém elevada a incerteza quanto à implementação e à credibilidade desse arcabouço. Nesse sentido, avaliamos que o cenário ainda deve ser tratado como frágil, com baixa visibilidade sobre a normalização dos fluxos de energia no curto prazo.
Do ponto de vista diplomático, a continuidade das negociações no Catar e o possível papel de mediação de atores regionais e da China indicam que há incentivos para evitar uma escalada adicional do conflito. Ainda assim, as posições das partes permanecem distantes. A sinalização iraniana de condicionar a reabertura de Ormuz a contrapartidas, incluindo possíveis “taxas de serviço” para embarcações, reforça a percepção de que a normalização da rota pode ocorrer de forma gradual e sujeita a novas interrupções. Dessa forma, mesmo em um cenário de acordo parcial, o prêmio de risco geopolítico tende a permanecer incorporado aos preços de energia.
A interrupção prolongada do fluxo já começa a gerar efeitos secundários em diferentes economias, com reajustes nos preços de combustíveis na Índia e riscos de escassez de produtos químicos derivados da nafta no Japão. Esses sinais sugerem que o choque deixou de ser apenas um evento concentrado no mercado de petróleo e passou a afetar cadeias produtivas mais amplas, elevando os riscos inflacionários e os custos de produção em economias dependentes de energia importada.
Em síntese, entendemos que os desenvolvimentos recentes reduzem parcialmente o risco de uma deterioração abrupta do conflito, mas ainda não são suficientes para remover o choque do cenário-base. Enquanto não houver reabertura efetiva do Estreito de Ormuz e recomposição consistente dos fluxos de energia, o petróleo deve permanecer em patamar elevado e sujeito a forte volatilidade. Para os mercados, o quadro segue exigindo cautela, com implicações relevantes para inflação global, moedas emergentes e condução da política monetária nas principais economias.
