Ontem, 29 de abril, Brasil e Estados Unidos tiveram decisões de juros em linha com o esperado, corte de 0,25 p.p. pelo Banco Central do Brasil e manutenção pelo Federal Reserve. Apesar de enfrentarem dinâmicas distintas, o conflito no Oriente Médio adicionou uma camada comum de complexidade, ao elevar riscos inflacionários via energia e ampliar a incerteza sobre o cenário prospectivo. Nesse contexto, ambas as autoridades buscaram preservar credibilidade e previsibilidade em um ambiente de maior volatilidade.
Nos EUA, o Federal Reserve manteve os juros no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano, como esperado. A decisão não foi unânime, com Stephen Miran, indicado por Donald Trump, votando por um corte. O principal foco estava na comunicação, especialmente na manutenção do trecho que ainda sinaliza que o próximo movimento tende a ser de afrouxamento monetário. Apesar da maior incerteza, o comitê preservou esse viés, mas indicou aumento do debate interno sobre sua retirada, com mais dirigentes defendendo essa mudança em relação à reunião de março. Ainda assim, não houve sinalização de apoio a uma alta de juros. Outro destaque foi a confirmação de que Jerome Powell seguirá no board do Fed após o fim de seu mandato como presidente, mitigando, no curto prazo, o risco de uma inflexão mais leniente da política monetária em resposta a pressões políticas.
No Brasil, o Copom reduziu a Selic em 0,25 p.p., para 14,50% ao ano. Apesar da decisão em linha com o esperado, o comunicado teve tom net hawk e abriu espaço para um ciclo de cortes com menor extensão. Essa leitura se apoia nos trechos adicionados ao comunicado, que passaram a reconhecer piora da dinâmica inflacionária na margem com aceleração das medidas subjacentes se distanciado da meta; atividade mais resiliente no primeiro trimestre ainda que em desaceleração e maior incerteza associada ao conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre a convergência da inflação. As projeções também reforçaram a leitura cautelosa. Para 2026, a surpresa altista veio de preços livres, sugerindo uma dinâmica inflacionária de curto prazo mais deteriorada; no horizonte relevante, veio de administrados, possivelmente refletindo uma premissa menos benigna para petróleo ou outros preços administrados. Dessa forma, embora a continuidade dos cortes ainda seja nosso cenário base, o comunicado aumentou a probabilidade de interrupção mais cedo do ciclo.
