A assinatura do memorando de entendimento entre EUA e Irã representa uma melhora relevante no balanço de riscos geopolíticos de curto prazo, ao formalizar um acordo interino de paz e deslocar o foco do conflito militar para a reabertura do Estreito de Ormuz e para uma nova rodada de negociações diplomáticas. A sinalização inicial foi suficiente para reduzir o prêmio de risco no petróleo, com o Brent recuando para a região de US$ 78/barril, após um longo período acima de US$ 100/barril em meio às tensões no Oriente Médio.
Apesar da reação positiva dos mercados de energia, a normalização dos fluxos pelo Estreito de Ormuz ainda deve ser gradual. O acordo prevê a retomada do tráfego comercial, sem cobrança por 60 dias, mas a implementação depende da superação de obstáculos técnicos e militares, incluindo a retirada de minas e a definição de regras operacionais para a navegação. Nesse sentido, embora alguns carregamentos já tenham voltado a cruzar a região, a recomposição plena dos volumes de petróleo e gás natural liquefeito pode levar meses.
Do ponto de vista macroeconômico, a assinatura do MoU reduz, no curto prazo, o risco de um choque adicional de energia sobre a inflação global. A queda do petróleo alivia parte da pressão sobre combustíveis, custos de transporte e expectativas inflacionárias, o que tende a reduzir a probabilidade de respostas mais agressivas por parte dos principais bancos centrais. Ainda assim, o petróleo permanece em patamar elevado no ano, indicando que o prêmio geopolítico foi reduzido, mas não eliminado.
O principal ponto de atenção passa a ser a janela de 60 dias de negociações sobre o programa nuclear iraniano. O acordo interino prevê discussões sobre restrições ao programa nuclear de Teerã e sobre o tratamento dos estoques de urânio altamente enriquecido, temas tecnicamente complexos e politicamente sensíveis. A possibilidade de extensão do prazo reduz o risco de ruptura imediata, mas também evidencia que o MoU deve ser interpretado mais como uma trégua condicionada do que como uma solução definitiva.
Em nossa avaliação, o acordo reduz o risco extremo associado a uma escalada militar no Oriente Médio, mas ainda não permite uma leitura de normalização plena do cenário geopolítico. Para os mercados, o impacto inicial é benigno, sobretudo via petróleo, inflação e ativos de risco. Contudo, a sustentabilidade desse alívio dependerá da efetiva reabertura de Ormuz, da retomada dos fluxos de energia e da capacidade das partes de avançarem nas negociações nucleares. Dessa forma, o episódio melhora o cenário de curto prazo, mas mantém elevada a incerteza para commodities, inflação global e condução da política monetária.
