Nossa visão
Visão construtiva para PETR4 após a teleconferência do 2T26. O tom do management foi positivo e, mais importante do que o resultado em si, a companhia reforçou uma agenda clara de execução para os próximos trimestres: i) produção em patamar recorde; ii) ramp-up de Búzios com P-78 e P-79; iii) antecipação de plataformas futuras, especialmente P-80; iv) expansão de capacidade em unidades já instaladas; v) FUT acima de 100% no refino; vi) aumento da produção de diesel; vii) manutenção da política comercial com apoio via subvenções; viii) forte geração de caixa; ix) desalavancagem; e x) debate ainda aberto sobre dividendos extraordinários.
O ponto de atenção permanece no alocação de capital. A administração foi clara ao dizer que a prioridade do caixa continua sendo: i) execução do plano estratégico; ii) redução de dívida em direção ao patamar-alvo; iii) dividendos ordinários; e iv) apenas depois, eventual dividendo extraordinário. Em um trimestre de Brent acima de US$100/bbl, produção recorde e desalavancagem, entendemos que o investidor continuará questionando por que a remuneração extraordinária ainda não apareceu de forma mais contundente.
Principais pontos discutidos
I) Produção: recordes operacionais seguem sustentando a tese
A produção foi novamente o principal ponto da teleconferência. A Petrobras destacou que encerrou o 2T26 com um novo recorde operacional, apoiado no ramp-up dos projetos já entregues, na entrada em operação da P-79 e em ganhos de eficiência. A companhia reforçou que a produção de óleo no trimestre alcançou cerca de 2,7 milhões de barris/dia, patamar que representa avanço relevante sobre o mesmo período do ano anterior e confirma o movimento de recuperação da curva de produção após anos de execução intensa de CAPEX.
O management também reforçou que julho trouxe novos recordes: produção de óleo de 2,78 milhões bpd e produção total de óleo e gás de 3,18 milhões boed. Essa leitura é importante porque sugere que o 3T26 começa com carrego operacional positivo, mesmo considerando paradas programadas e eventuais restrições pontuais.
Nossa Opinião: Esse é o ponto mais importante da tese. A Petrobras está mostrando que o CAPEX contratado nos últimos anos está virando produção, e não apenas base de ativos em construção. Em nossa leitura, o investidor deveria olhar menos para o número isolado do trimestre e mais para a tendência: Búzios, Mero, P-78, P-79 e os projetos subsequentes estão dando mais visibilidade para a curva de produção 2026-2030. O risco é que parte do mercado ainda trate a Petrobras como uma tese puramente de Brent/dividendos, quando o call reforça que há uma história operacional relevante acontecendo.
II) Búzios: principal vetor de crescimento e opcionalidade
Búzios segue como o centro de gravidade da tese. A administração destacou que o campo continua entregando produtividade acima do esperado e que a P-79 iniciou operação três meses antes do previsto. A companhia também reforçou que a P-78 já está contribuindo e que há expectativa de continuidade do ramp-up nos próximos trimestres.
O ponto mais relevante foi a discussão sobre capacidade acima do desenho original. A Petrobras voltou a citar o caso do FPSO Almirante Tamandaré, cuja capacidade nominal era de 225 mil bpd, mas que passou a produzir 270 mil bpd. A companhia afirmou que existem outras plataformas com potencial semelhante e que já há capacidade adicional superior a 100 mil bpd identificada, com parcela Petrobras acima de 90 mil bpd.
Nossa Opinião: Esse comentário é muito relevante. Quando a companhia consegue adicionar produção sem adicionar CAPEX proporcional, o retorno incremental tende a ser muito alto. Em outras palavras, o upside em Búzios não vem apenas da entrada de novas plataformas, mas também da possibilidade de operar unidades existentes acima do projeto original. Esse é um tipo de opcionalidade que o mercado tende a precificar apenas quando aparece nos números mensais de produção.
III) P-80, P-82 e P-83: antecipação continua no radar
A companhia detalhou o cronograma das próximas plataformas. Segundo a administração, a P-80 está programada para deixar o estaleiro no 3T26 e iniciar produção no 1T27; a P-82 deve deixar o estaleiro no 4T27; e a P-83 deve sair no 3T27, com produção prevista para o 2S27. O management foi cuidadoso ao não prometer formalmente antecipações, mas reforçou que a empresa trabalha para antecipar entregas sempre que possível.
Nossa Opinião: A Petrobras parece estar mudando a percepção de risco de execução. Em vez de atrasos crônicos, a mensagem agora é de antecipação seletiva. Isso é relevante para valuation porque antecipa geração de caixa e reduz incerteza sobre o plano. A P-80 será o próximo teste relevante: caso a companhia consiga acelerar sua entrada de forma segura, o mercado tende a ganhar confiança adicional na curva de produção do plano 2026-2030.
IV) Refino: FUT acima de 100% e diesel como principal vetor
O refino foi outro grande destaque do call. A Petrobras reportou FUT de 101% no 2T26, com rendimento de 68% em produtos de maior valor agregado (diesel, QAV e gasolina). Em julho, o FUT superou 102%, novo recorde histórico, e a produção de diesel também atingiu recorde.
A administração explicou que o aumento da utilização das refinarias permitiu maior produção própria de derivados e menor necessidade de importações. Esse ponto foi especialmente importante em um cenário de Brent elevado e preços internacionais pressionados. A companhia também ressaltou que pretende seguir substituindo importações por produção local, sempre que houver viabilidade econômica e disponibilidade operacional.
Nossa Opinião: O refino teve papel decisivo no trimestre. A Petrobras não apenas produziu mais petróleo, mas também conseguiu processar mais carga e capturar margem via derivados próprios. Isso melhora a qualidade do resultado, porque reduz a dependência de revenda de derivados importados. O risco é que FUT acima de 100% não deve ser tratado como patamar estrutural sem normalização de paradas e manutenção.
V) Diesel, política de preços e subvenções: resultado forte, mas com complexidade crescente
A política comercial voltou a ser tema relevante. A companhia reforçou que seus preços continuam abaixo da paridade de importação em determinados momentos, mas que existe uma política pública de suporte ao mercado doméstico por meio de subvenções. O management indicou que a Petrobras não busca capturar volatilidade extrema no consumidor final, mas também reiterou que a empresa não quer operar com prejuízo.
No diesel, a administração mencionou que houve maior competitividade de importadores no trimestre e que, em alguns momentos, players locais conseguiram importar sem prejuízo por conta do aumento das subvenções. Ao mesmo tempo, a Petrobras reforçou que não vê risco de desabastecimento e que segue trabalhando para maximizar a produção própria de diesel.
Nossa Opinião: Esse é provavelmente o ponto mais sensível da tese. O resultado de refino foi muito bom, mas a mecânica de subvenções, contas a receber e política comercial adiciona uma camada de complexidade para o investidor. O call reduz o risco de “perda direta” no curto prazo, mas não elimina a percepção de interferência. Na prática, o mercado vai continuar monitorando se a Petrobras consegue preservar rentabilidade mesmo atuando como instrumento de estabilidade de preços no mercado doméstico.
VI) Dividendos: ordinários preservados, extraordinários ainda improváveis
A administração foi bastante direta sobre dividendos. O dividendo ordinário segue regido pela fórmula de distribuição de 45% do fluxo de caixa livre, mas a companhia não indicou intenção de pagar dividendos extraordinários no curto prazo. O management afirmou que, antes de discutir distribuições adicionais, a prioridade é financiar o plano estratégico, reduzir dívida e preservar flexibilidade financeira.
A empresa também destacou que o cenário de Brent segue volátil e que há incertezas relevantes para o planejamento 2026-2030. Ainda assim, a companhia aprovou R$17,4 bilhões em proventos relacionados ao 2T26.
Nossa Opinião: Aqui está o principal ponto de frustração potencial para investidores. Operacionalmente, o trimestre foi excepcional. Financeiramente, a geração de caixa foi muito forte. Em termos de balanço, a alavancagem caiu. Portanto, em nossa visão, há espaço para discutir dividendos extraordinários sem comprometer o plano. A administração, porém, continua privilegiando uma postura conservadora. Isso não destrói a tese, mas limita o upside de curto prazo via capital return.
VII) CAPEX: aceleração com foco em produção
A companhia investiu US$5,3 bilhões no 2T26, com quase 90% direcionado a projetos de alto retorno e produção. O management citou aumento expressivo em perfuração e interligação de poços, além de avanço nas construções de P-78, P-82 e P-83. A administração reforçou que o CAPEX segue concentrado no E&P, especialmente em Búzios, Atapu, Sépia e Sergipe Águas Profundas. Além do E&P, houve menção a investimentos em refino, especialmente em projetos que ampliam a produção de diesel e reduzem importações. A companhia também indicou que segue avaliando oportunidades em gás, baixo carbono e distribuição, mas sem comprometer disciplina de capital.
Nossa Opinião: O CAPEX elevado ainda é um ponto de debate, mas o call reforçou que a maior parte dos recursos está indo para projetos com retorno visível. O problema não é investir; o problema seria investir fora do core ou em projetos com retorno inferior ao custo de capital. Até aqui, a mensagem foi razoavelmente positiva: E&P continua dominante e refino aparece como alavanca de segurança energética e substituição de importações. Ainda assim, qualquer aumento relevante em projetos menos rentáveis deverá ser acompanhado de perto.
VIII) Exploração e reposição de reservas: Margem Equatorial segue como prioridade, mas exterior volta ao radar
A Petrobras foi questionada sobre reposição de reservas, Margem Equatorial, África, México e outras oportunidades internacionais. A administração reforçou que não há futuro para uma petroleira sem exploração e reposição de reservas. A Margem Equatorial segue como uma das prioridades domésticas, mas a companhia também avalia oportunidades no exterior, incluindo África, México, Colômbia, Costa do Marfim e Golfo do México.
Magda Chambriard destacou que a Petrobras tem experiência relevante no Atlântico Sul e que há similaridades geológicas entre Brasil, África e algumas áreas internacionais. No México, a companhia vê oportunidades em águas ultraprofundas, onde possui vantagem técnica, mas deixou claro que ainda não há compromisso de investimento.
Nossa Opinião: A reposição de reservas é essencial para a tese de longo prazo. O ponto é que o investidor tende a preferir que a Petrobras priorize oportunidades domésticas de alto potencial, como a Margem Equatorial, antes de avançar em M&A internacional ou novas fronteiras fora do Brasil. A fala do management foi equilibrada: explorar é necessário, mas qualquer investimento precisa passar por critérios de retorno. A disciplina nessa frente será fundamental para evitar destruição de valor.
IX) Braskem, distribuição e M&A: portas abertas, mas sem decisão concreta
A administração foi questionada sobre Braskem, distribuição de combustíveis, GLP, etanol e metais raros. Em Braskem, a companhia reforçou que não há decisão concreta e que acompanha o tema sem interferir na governança da petroquímica. O management lembrou que a Petrobras não é mais acionista da Braskem e que qualquer discussão dependeria de governança, credores e propostas formais. Sobre distribuição, a Petrobras afirmou que segue avaliando alternativas dentro do planejamento estratégico, incluindo possíveis movimentos em B2B e B2C. Em etanol, o discurso foi de avanço gradual, com prioridade para parcerias e participação minoritária, respeitando confidencialidade e disciplina de capital.
Nossa Opinião: O mercado continuará sensível a qualquer sinal de M&A fora do core. A Petrobras tem espaço para avaliar distribuição, etanol e baixo carbono, mas a régua de retorno precisa ser alta. A melhor notícia do call foi a ausência de anúncio transformacional. Em nossa leitura, o investidor prefere que a companhia continue priorizando E&P, refino de alto retorno e dividendos, em vez de usar o caixa excedente em movimentos estratégicos de retorno incerto.
X) O que monitorar daqui para frente
Os próximos gatilhos para PETR4 são: i) produção mensal de julho e agosto, para confirmar o novo patamar operacional; ii) ramp-up da P-79; iii) evolução da P-78; iv) cronograma da P-80; v) manutenção do FUT em patamar elevado sem comprometer confiabilidade; vi) produção de diesel e redução de importações; vii) recebimento das subvenções e impacto em capital de giro; viii) evolução da dívida líquida; ix) decisão sobre dividendos extraordinários; e x) avanço da Margem Equatorial.

