Conclusão
Crescimento ficou para depois. A companhia não está buscando crescimento de produção, mas sim estabilidade operacional, melhor retorno sobre capital e maior eficiência na monetização dos ativos existentes. O management deixou claro que, após anos de maior intensidade em perfuração, o foco atual está em recuperação secundária, injeção de água, workovers seletivos, redução de descontos comerciais e preservação de caixa. Ou seja: o cenário-base para o case não é mais de crescimento. Importante mencionar que o atual nível de produção da empresa já está abaixo daquilo que é considerado em suas curvas de certificação 1P (27K bpde vs 23.9k bpde em Julho/26).
A leitura do call seguiu nessa toada: sem uma promessa de retomada acelerada de volumes no curto prazo. O destravamento de valor passa por três vetores principais: (i) estabilizar a produção em uma base mais sustentável; (ii) capturar melhora estrutural de netback via contrato com Brava e alternativas logísticas; e (iii) manter Capex e custos sob controle para preservar geração de caixa e remuneração ao acionista.
I) Menos Crescimento, mais estabilidade da produção
O management foi direto ao explicar que a companhia reduziu atividades com menor impacto de curto prazo e manteve foco em projetos capazes de gerar valor de forma mais consistente. A produção do 2T26 ficou em torno de 24,1 mil boe/dia, com queda marginal frente ao 1T26, e a empresa indicou que a prioridade para o 2S26 é buscar maior estabilidade, especialmente por meio de injeção de água e projetos de recuperação secundária. A companhia reconheceu que o campo de Tiê teve um pico após a entrada de novos poços, mas que o aumento de produção acelerou a depleção do reservatório. Por isso, a estratégia agora é menos dependente de novas perfurações e mais baseada em recomposição de pressão, melhor varrido e aumento do fator de recuperação.
Essa mensagem muda a leitura da tese. A PetroReconcavo deixa de vender uma narrativa de crescimento linear de volumes e passa a defender uma tese de qualidade de produção, em que a estabilidade operacional e o retorno marginal dos projetos são mais importantes do que o crescimento nominal de boe/dia. Isso pode ser menos excitante no curto prazo, mas tende a ser mais saudável para o valor intrínseco da companhia se vier acompanhado de maior netback e menor necessidade de Capex.
II) Recuperação secundária: o principal vetor de destravamento operacional
A companhia dedicou parte relevante da teleconferência à estratégia de injeção de água. Segundo o management, o volume médio diário de água injetada no 2T26 apresentou evolução relevante em diferentes campos: Tiê teve aumento expressivo, Sabiá da Mata multiplicou seu volume injetado, Sabiá Bico-de-Osso também avançou, e a injeção de água no Ativo Potiguar passou a superar a produção líquida em junho. Em Tiê, a empresa destacou que segue abrindo novas zonas, otimizando volumes entre formações e utilizando injeção de polímeros para melhorar a eficiência do varrido do reservatório.
Em nossa leitura, esse é o ponto mais importante da teleconferência. Resta sabr se a recuperação secundária prova a capacidade de estabilizar produção e aumentar fator de recuperação. A companhia parece estar tentando transformar sua base madura em uma plataforma de geração de caixa mais previsível, utilizando ferramentas de engenharia de reservatório para extrair volumes incrementais com melhor retorno sobre capital.
III) Capex 2026: patamar mais baixo deve continuar – é o que restou, né…
O management indicou que o Capex de 2026 deve permanecer em patamar mais conservador, próximo ao observado no 2T26, ainda que o orçamento final dependa de aprovação do Conselho. A companhia destacou que reduziu atividades em projetos com menor impacto de curto prazo, manteve a PR-04 hibernada e passou a priorizar investimentos em workovers, injeção de água e recuperação secundária. Para 2026, a empresa sinalizou intenção de concentrar recursos em projetos que aumentem produção sustentável, melhorem eficiência e preservem caixa.
A implicação para a tese é dupla. Do lado positivo, a disciplina de Capex reduz risco de destruição de valor em um ambiente de volatilidade no Brent e protege o fluxo de caixa. Do lado negativo, um Capex mais baixo limita a velocidade de recuperação da produção. Em outras palavras, a companhia está aceitando uma retomada mais gradual dos volumes em troca de melhor retorno sobre o capital investido.
IV) Workovers mais seletivos: quantidade menor, qualidade maior
A companhia também explicou que vem reduzindo o ritmo de sondas e intervenções, mas não por falta de oportunidade; a decisão reflete uma priorização de projetos com melhor relação risco-retorno. O management mencionou que os projetos são classificados de acordo com maturidade, potencial de produção, retorno esperado e necessidade de capital. Nesse contexto, os projetos de recuperação secundária e workovers de maior eficiência passaram a ocupar espaço maior na alocação de capital.
V) Contrato com Brava: um dos principais gatilhos de netback
Um dos pontos mais positivos da teleconferência foi a discussão sobre os contratos de venda de óleo no Ativo Potiguar. O management destacou que os aditivos com a Brava melhoraram as condições comerciais, reduziram descontos e contribuíram para a forte melhora do preço realizado no trimestre. Além disso, o novo contrato de longo prazo, com vigência de outubro de 2026 a dezembro de 2030, traz mais previsibilidade comercial e mantém uma estrutura de incentivos relacionada a volumes.
Esse ponto tem impacto direto na tese. A melhora de netback não depende apenas de produzir mais; depende também de vender melhor. Como o desconto no Potiguar vinha sendo uma das principais fontes de penalização da receita, a renegociação com a Brava pode destravar valor de forma mais imediata do que uma nova perfuração. Em nossa visão, esse é um dos principais gatilhos de curto prazo para RECV3 – já que não estamos falando mais de crescimento, vender melhor passa a ser observado com mais atenção.
VI) Hedge: proteção necessária, mas com custo em cenário de Brent alto
O management também foi questionado sobre a política de hedge, especialmente diante dos impactos negativos dos NDFs e ZCCs em um ambiente de Brent elevado. A companhia defendeu que os instrumentos são utilizados para proteger a geração de caixa e garantir capacidade de investimento mesmo em cenários adversos. A política é revisada continuamente, considerando preço, cenário macro, compromissos de Capex e liquidez.
Aqui vemos um ponto de atenção. A baixa alavancagem da companhia poderia justificar menor proteção em alguns momentos do ciclo, permitindo maior captura de upside do Brent. Por outro lado, a previsibilidade de caixa é importante para uma empresa que opera campos maduros, com necessidade recorrente de Capex de manutenção, workovers e projetos de recuperação. A discussão central para investidores será calibrar se o nível de hedge é adequado ou excessivo frente ao novo perfil de balanço da PetroReconcavo.
VII) Custos: redução absoluta ajuda, mas escala ainda importa
A companhia destacou que segue focada em redução de custos recorrentes, incluindo menor gasto administrativo, internalização de capacidades, renegociação de serviços e captura de sinergias no midstream. O management também reconheceu que o lifting cost unitário foi pressionado pela menor produção, ou seja, mesmo com queda de custos absolutos, a menor base de volumes reduz a diluição operacional.
A mensagem é importante: há esforço real de eficiência, mas o custo por barril só deve melhorar de forma mais consistente se a produção estabilizar. A PetroReconcavo pode cortar custos, renegociar contratos e internalizar serviços, mas a alavanca mais relevante para o lifting cost ainda é a recuperação da escala produtiva.
VIII) Alavancagem confortável sustenta flexibilidade
O management reforçou que a alavancagem atual é confortável e que a companhia não vê necessidade de alterar estruturalmente sua posição de dívida no curto prazo. A empresa quer manter flexibilidade para avaliar investimentos orgânicos, M&A, oportunidades de midstream, dividendos e recompras. A estrutura de capital foi apresentada como um ativo estratégico, não como uma restrição.
Esse é um dos pilares defensivos da tese. Mesmo com produção pressionada e hedge limitando parte da captura do Brent, a PetroReconcavo segue com liquidez suficiente para atravessar o ciclo, investir de forma seletiva e remunerar acionistas.
IX) Dividendos e recompra: capital return ganha espaço, mas sem fórmula rígida
A companhia indicou que a alocação de capital seguirá sendo discutida caso a caso com o Conselho, considerando JCP, dividendos, recompra, Capex, M&A e alavancagem. O management destacou que JCP pode ser eficiente do ponto de vista tributário, enquanto recompras podem ser avaliadas quando houver janela favorável e desconto relevante das ações.
X) O que estamos olhando daqui para frente
Para os próximos trimestres, os principais pontos de monitoramento serão: (i) evolução da resposta à injeção de água em Tiê, Miranga, Remanso e Potiguar; (ii) estabilidade da produção em torno do novo patamar operacional; (iii) manutenção da melhora de descontos no contrato com Brava; (iv) normalização de Guamaré após a parada programada; (v) evolução do lifting cost com menor Capex e menor número de sondas; e (vi) eventual aceleração de capital return via JCP, dividendos ou recompra.
Em síntese, o call do 2T26 mostrou uma PetroReconcavo menos voltada para crescimento de headline e mais concentrada em eficiência, retorno sobre capital e estabilidade.

