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    Publicado em 05 de Junho às 12:07:15

    JBS (JBSS32) | Bicheira (New World Screwworm) confirmada no Texas

    O que aconteceu?

    O USDA confirmou na noite de 3/Jun o 1° caso de New World screwworm (a mosca-da-bicheira, Cochliomyia hominivorax) em rebanho dos EUA desde 1966. A amostra veio de um bezerro de três semanas em La Pryor, no sul do Texas, e foi confirmada pelo laboratório nacional do USDA em Ames, Iowa. A praga avançou pelo México ao longo do último ano até cruzar a fronteira.

    A bicheira deposita ovos em ferimentos de animais vivos; as larvas se alimentam do tecido do hospedeiro e podem matá-lo. O ponto relevante para a cadeia: a praga ataca o animal vivo, não a carne. Não há, portanto, questão de contaminação do produto nem risco sanitário para o consumidor — o risco é de perdas de rebanho e de produtividade no campo.

    A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, afirmou que o USDA acredita poder conter o caso. A resposta segue o protocolo histórico que erradicou a praga nos EUA: zona infestada de 20 km, quarentena, controle de movimentação, vigilância e liberação acelerada de moscas estéreis. Estimo perdas econômicas de até US$1,8b Est. caso a praga se dissemine no Texas, cuja pecuária movimenta US$15b.

    Por que importa para o boi americano?

    A notícia chega no pior momento do ciclo do gado. O rebanho americano está no menor nível em 75A — 86,2 milhões de cabeças em 1/Jan de 2026, o menor desde 1951 —, resultado de secas prolongadas, custos altos e consolidação. Os preços do boi gordo e do bezerro bateram recordes em 2025 e seguem elevados em 2026.

    A fronteira com o México, de onde vinha 62% das importações de boi vivo dos EUA entre 2020-24, está fechada para gado vivo desde Mai/25 justamente devido ao avanço da bicheira. Um surto interno aprofundaria a escassez de animais e prolongaria o trough de margem dos frigoríficos americanos, que já disputam oferta curta. A reação inicial do mercado foi volátil: os futuros de feeder cattle oscilaram e as ações de JBS e Tyson recuaram no pregão.

    Exposição da JBS: Grande em receita, pequena em EBITDA no boi dos EUA

    A operação de boi norte-americana (JBS Beef North America) é a maior linha de receita do grupo, mas a de pior rentabilidade. Em 2025 ela representou 32% das vendas e ainda assim registrou EBITDA ajustado de -US$319m (margem de -1,1%). O quadro piorou no início de 2026: no 1T26, a receita subiu para US$7,2b (+11,6% a/a), mas o resultado operacional ajustado foi de -US$279m, e o EBITDA dos últimos 12M caiu para -US$486m (margem de -1,7%).

    O contraponto, no entanto, é a diversificação. Mesmo com o boi dos EUA no vermelho, Seara, Pilgrim’s Pride, JBS Brasil, JBS USA Pork e JBS Australia sustentaram o resultado consolidado, com todas (exceto JBS Brasil) com margens de dois dígitos (faixa de 11-17%). Por isso a JBS fechou 2025 com US$86,2b de receita (+11,7% a/a), EBITDA ajustado US$6,8b (margem de 8%) e ROE de 25,3%.

    A alavancagem subiu para 2,8x no 1T26 (+0,4x t/t), ainda dentro da zona de conforto da companhia, que mantém o (i) pagamento de dividendos — cerca de US$1,1b (US$1/ação) a ser pago em 17/Jun — e o caso de (ii) inclusão em índices americanos após a listagem na NYSE.

    Leitura para a tese

    Vemos a notícia como negativa marginal para a JBS, e não como ruptura. Os vetores:

    (1) Impacto direto pequeno e já no preço da operação fraca. A bicheira pressiona a unidade de boi dos EUA, que já dá prejuízo. Um surto que prolongue a escassez de gado mantém o frigorífico americano comprimido, mas essa unidade contribui pouco (ou negativamente) para o EBITDA do grupo;
    (2) Diversificação como amortecedor. Frango (Pilgrim’s, Seara), suínos e as operações de boi fora dos EUA seguram o resultado. A tese estrutural de que o motor de lucro está fora do boi americano sai reforçada, não enfraquecida;
    (3) Possível efeito positivo em Brasil e Austrália. Oferta americana ainda mais curta tende a elevar a demanda por importação e os preços de exportação, beneficiando boi brasileiro e australiano — exatamente onde a JBS tem margens altas;
    (4) Contenção é o cenário-base. A técnica da mosca estéril já erradicou a praga nos EUA antes, e o USDA agiu rápido. Não é evento de contaminação de produto. O risco maior seria disseminação ampla e demorada, que ainda não é o caso.

    Risco de restrições asiáticas: Baixa probabilidade, impacto assimétrico

    A hipótese de que Japão, Coreia do Sul e China imponham embargo à carne americana tem lógica superficial, mas diverge da biologia do parasita. A bicheira infecta animais vivos por contato com ferimentos; não é doença zoonótica e não se transmite pela carne processada, resfriada ou congelada. Isso retira do tabuleiro o cenário de restrição à carne bovina destinada ao consumo humano.

    Os três países têm protocolos sanitários rígidos e histórico de reações rápidas — a Coreia do Sul suspendeu importações de carne americana durante o BSE em 2003 — mas naquele caso havia risco confirmado ao consumidor final. Aqui não há.

    O risco comercial deve ser mais estreito: se o USDA ampliar as zonas sanitárias, países importadores podem suspender certificados de estabelecimentos específicos nessas regiões como precaução protocolar. Seria localizado e temporário, não um embargo nacional.

    O efeito líquido para os exportadores brasileiros seria positivo. Oferta americana comprimida + eventual redirecionamento de compradores asiáticos ampliam o espaço para carne brasileira, exatamente onde JBS Brasil e JBS Australia operam com margens positivas.

    O que monitorar?

    (1) Novos casos e o ritmo de contenção pelo USDA (raio da zona infestada, eficácia das moscas estéreis);
    (2) Futuros de feeder e live cattle na CME e o spread de margem do frigorífico de boi nos EUA;
    (3) Status da fronteira com o México para gado vivo e eventual ampliação de restrições;
    (4) Trajetória de margem da JBS Beef North America nos próximos resultados e a evolução da alavancagem (2,8x no 1T26);
    (5) Reação de Japão, Coreia do Sul e China: eventual suspensão de certificados de estabelecimentos em zonas afetadas e o volume representativo nas exportações americanas para a região.

    E se o surto fosse no Brasil, o risco de embargo seria o mesmo?

    Não. O cenário seria diferente e, possivelmente, mais severo para o Brasil. A bicheira é nativa da América do Sul e já é endêmica no território brasileiro. O MAPA a monitora e os produtores a tratam há décadas. O que criaria risco de embargo não seria um caso isolado, mas uma notificação formal de surto que países importadores usassem como pretexto sanitário. É exatamente aí que o Brasil diverge dos EUA.

    China, Japão e Coreia do Sul têm histórico de usar incidentes sanitários contra o Brasil com uma agressividade que não aplicam aos americanos. A Operação Carne Fraca em 2017 levou China e outros 20 países a suspenderem importações em questão de dias. Em 2021, a China voltou a embargar o boi brasileiro por um caso de BSE atípico — evento que os próprios protocolos internacionais classificam como baixo risco.

    Acredito que duas razões estruturais tornam o Brasil mais vulnerável: (i) concentração de destino e (ii) peso político. Cerca de 60-70% das exportações brasileiras de boi vão para a China. Os EUA têm capacidade de pressão que o Brasil simplesmente não tem frente a esses mercados. Para o Brasil, o risco de embargo seria maior, não pela biologia do parasita, mas pelo histórico e pelo desequilíbrio nas relações comerciais.

    O surto aumenta a probabilidade de Trump remover a tarifa restante sobre a carne bovina importada?

    Não materialmente e, ainda, o efeito líquido pode ser o oposto. O argumento econômico existe: rebanho mínimo em 75A somado à pressão da bicheira gera escassez, o que criaria motivo para abrir importações e aliviar preços. Mas a lógica política vai na direção contrária. A base de Trump no agronegócio são os pecuaristas, o grupo que se beneficia de preços altos do boi e se opõem a qualquer liberalização de boi importado. Cortar tarifas em meio a um surto sanitário doméstico seria lido pelo eleitorado rural como favorecimento de frigoríficos sobre o produtor.

    Porém, pontuo que o contraponto existe. Se os preços ao consumidor dispararem a ponto de virar pauta eleitoral, a Casa Branca pode ceder via suspensão tarifária pontual. Mas isso exigiria uma escalada visível no varejo, não apenas um caso no Texas. O mais provável, dessa forma, é de que o incidente reforçaria a narrativa protecionista — proteger o rebanho americano de pragas externas — e reduziria marginalmente a probabilidade de liberalização. Acredito que a remoção de tarifas sobre boi seguirá a lógica de negociações bilaterais, não de um evento sanitário pontual.

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