Conclusão
Tudo mudou! A prisão de Nicolás Maduro representa, mais do que um evento político de alto impacto, um ponto potencial de inflexão estrutural para o mercado global de petróleo e para o reposicionamento geopolítico da América do Sul. Ainda que a manutenção de figuras centrais do chavismo no núcleo do poder sugira que a transição esteja longe de ser plenamente democrática e institucionalmente consolidada, o simples redesenho do eixo de influência (agora claramente orientado aos Estados Unidos) já é suficiente para recolocar a Venezuela no radar estratégico do mercado de O&G.
Com as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, a Venezuela carrega um potencial singular de reintroduzir, ao longo dos próximos anos, um volume relevante de oferta estrutural no mercado internacional, alterando o equilíbrio hoje sustentado pela OPEP e, por extensão, os mecanismos tradicionais de controle de preços. Tal movimento tende a reduzir o poder de barganha do cartel, ampliar a margem de manobra dos EUA em sua política energética e exercer pressão estrutural sobre o Brent no médio e longo prazo.
Para o Brasil, o cenário combina risco e oportunidade. A provável reabertura venezuelana ao capital estrangeiro, em um ambiente de prêmio de risco elevado, tende a gerar ativos extremamente depreciados ao longo da cadeia de óleo e gás, criando um campo fértil para operações oportunísticas por players com expertise em redesenvolvimento, engenharia de reservatórios maduros e reestruturação operacional. Nesse contexto, empresas brasileiras especializadas em ativos maduros passam a integrar o radar estratégico, ao mesmo tempo em que projetos exploratórios de maior risco e maturação longa, como a Margem Equatorial, podem perder relevância relativa frente a oportunidades com reservas já provadas e potencial de geração de caixa mais tangível. Em síntese, estamos diante de um evento que transcende o campo político e inaugura uma nova fronteira de reprecificação de risco, ativos e estratégias de alocação de capital no setor de petróleo.
Nicolás Maduro preso!
Caiu de Maduro! Como amplamente divulgado, o ditador venezuelano foi preso na manhã deste sábado em uma ação dos Estados Unidos. Ainda que não soubessemos a forma, a sua prisão não é necessariamente uma surpresa tendo em vista a recente postura dos EUA em relação a Venezuela e o próprio histórico americano na deposição de desafetos. Citamos o caso mais simbólico o do Ditador Panamenho Manuel Noriega em 1989, deposto pelos EUA em uma ação militar. Além disso, a premiação com o prêmio Nobel da Paz da Deputada Maria Corina Machado trouxe legitimidade e reconhecimento a oposição democrática a ditadura venezuelana. Chegamos a escrever um texto sobre o oportuno acontecimento aqui: Petróleo & Gás | Maria Corina Machado vence o Prêmio Nobel da Paz! Como isso afeta seus investimentos?.
Em declarações recentes, O Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou sem mais rodeios:
Sobre o novo regime de transição:
“-Não queremos que outra pessoa assuma o poder e nos deparemos com a mesma situação que tivemos nos últimos anos. Portanto, vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa, e ela precisa ser criteriosa. Porque é isso que nos define”
Sobre o Petróleo:
“Nossas gigantescas companhias petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores do mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera que está em péssimo estado e começar a gerar lucro para o país”
Sobre a nova postura dos EUA em relação a América do Sul:
“Sob nossa nova estratégia de segurança nacional, o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado. Não vai acontecer. (…) Sob a administração Trump, estamos reafirmando o poder americano de uma forma muito poderosa em nossa região”
Ou seja: o interesse no petróleo é mais do que óbvia.
Chama a nossa atenção a manutenção de diversos outros nomes do Chavismo ainda em posições de poder: Delcy Rodriguez (Vice Presidente), Diosdado Cabello (Ministro do Interior, Justiça e Paz), Vladimir Padrino Lopez (Ministro da Defesa da Venezuela) e Jorge Rodriguez (irmão da Delcy Rodriguez e ex-Ministro da comunicação). A manutenção desses nomes em cargos de poder indicaria que o chavismo seguiria atuando na Venezuela sem uma real e definitiva alternância de poder na cúpula política do país.
Vamos tentar levantar esse ponto sob diversos pontos de vista:
Quais os impactos no mercado de petróleo?
É importante entender o contexto geopolítico da Venezuela, principalmente as suas reservas de petróleo – que é simplesmente a maior de todo mundo.
Venezuela (maybe) is Back to the game: Maior oferta de petróleo no longo prazo! com uma mudança no regime político da Venezuela e maiores reservas de petróleo do mundo, acreditamos que a recuperação econômica da Venezuela deverá passar, necessariamente, pela indústria do petróleo. Dito isso, acreditamos que o país tem o poder de trazer uma disrupção global na oferta de petróleo mundial retome a produção de outrora – importante mencionar que essa oferta não seria recuperada instantaneamente e se iria se materializar apenas ao longo do tempo. O gráfico abaixo resume o potencial da Venezuela caso ela passe a operar sob os termos corretos.
I) Maior reserva de Petróleo do Mundo: Venezuela tem a maior reserva petrolífera provada no mundo.
II) A produção dos países da OPEP ficou praticamente estável desde 2005: entre 34-35 milhões barris/dia.
III) Os países não-OPEP incrementaram sua produção em impressionantes 23 milhões barris equivalente/dia, mesmo com uma reserva 2,4x menor vs países da OPEP. Grandes destaques foram os EUA e Canadá (com o advento do shale gas) e do Brasil, com o pré-sal. Ou seja: mesmo possuindo reservas expressivas, a OPEP simplesmente manteve a oferta estável.
IV) A produção da Venezuela em 2005 era de 3,3 milhões de barris. Em 2020, o país produziu apenas 600k barris equivalente/dia mesmo permanecendo com as maiores reservas mundiais de petróleo. Tal declínio foi resultado da intensa convulsão social que o país atravessou ao longo dos últimos 20 anos.
V) Muy-Amigos! Enquanto a Venezuela convulsionava nas últimas décadas e apresentou queda na sua produção, os demais membros participantes da OPEP cobriram a queda de produção da Venezuela com razoável facilidade.
O que queremos provar? Como podemos perceber, a queda na produção da Venezuela foi plenamente reposta por demais membros da OPEP. Se por um lado os EUA tem claro interesse no aumento da produção do pais por interesses diversos (inflação, só para citar o mais recente), o apoio da Rússia na manutenção das coisas como estão na Venezuela iria no sentido de controle da oferta global do petróleo e manter os preços estruturalmente mais elevados. Imaginamos que a via aumento de produção a Venezuela deve retomar o seu share de mercado com o passar dos anos.
Quais os impactos para o Brasil? Risco ou Oportunidade?
Por se tratar de um pais em reconstrução cujo o seu desenvolvimento dependerá de investimentos na indústria do petróleo, imaginamos que o país como um todo deverá se abrir ao capital estrangeiro. Sendo um país com muito risco, instabilidade política, econômica e com amplo histórico de expropriações de empresas privadas, acreditamos que as oportunidades que vão aparecer no país (ativos exploratórios, maduros, downstream, etc) deverão ser ofertados a preços muito depreciados. Pegando o próprio Brasil como referência, o lendário Investidor André Jakurski – JGP chegou a comprar ações da Telebras por apenas 0,5x Preço/Lucro (não estamos falando de 0,5x Preço/Valor Patrimonial, veja bem) em uma época de Brasil pré-plano real… imagina o desafio de se precificar ativos em meio a um pandemônio econômico e social da hiperinflação, troca de moedas, etc.
Como medir esse risco? Países com equity risk premium e country risk premium mais altos são vistos pelos investidores como mais arriscados, seja por fatores econômicos (inflação, dívida, instabilidade política) ou por falta de segurança jurídica. Para compensar esse risco maior, os investidores exigem retornos esperados mais elevados. Como o valor de um ativo (uma ação, por exemplo) é calculado pelo fluxo de caixa futuro descontado a uma taxa de retorno exigida, quanto maior o risco, maior o desconto aplicado e, portanto, menor o valor presente. Em outras palavras: um país mais arriscado faz com que as empresas lá sediadas tenham seus ativos avaliados por múltiplos mais baixos e, consequentemente, pareçam “mais baratas” em relação a países com menor risco.
Petrobras (PETR4) | Para além da queda do Petróleo, a empresa mantém como grande trunfo a manutenção do mais baixo custo de extração de toda a indústria brasileira. Entretanto a empresa vem forçando uma postura de maior fluxo de investimentos, principalmente em negócios que julgamos pouco interessante. Acreditamos que inclusive isso pode colocar os dividendos da empresa em risco.
Empresas de Redesenvolvimento | Prio emerge como o case com menor custo de extração e dívida razoavelmente sob controle mesmo após as aquisições recentes vs Brava e Petroreconcavo. Entretanto, a depender da evolução dos acontecimentos, imaginamos que oportunidades podem ser ofertadas para empresas estrangeiras e, quem sabe, nomes brasileiros passarem a ser possíveis compradores dos ativos ofertados.
Geopolítica: algumas ideias a serem consideradas
Uma mini-OPEP. Imaginamos que os EUA ganham maior margem de manobra quanto as decisões da OPEP (corte de produção por exemplo para ter preços mais elevados, por exemplo). Sendo assim, OPEP passa a ter menor poder de regular preços de petróleo com maior evolução da produção venezuelana.
E a margem equatorial? Por se tratar de uma fronteira exploratória vs uma grande reserva já provada, imaginamos que a margem equatorial perde relevância vs eventuais oportunidades na Venezuela.
E a moeda dos BRICS? A moeda dos BRICS seria lastreada nas commodities dos seus países participantes – com o objetivo claro de substituição do dólar no longo prazo. Imaginamos que sobre controle dos EUA, as reservas de petróleo da Venezuela não devem mais fazer parte de qualquer tipo de lastro de novas moedas por parte dos BRICS.
Fluxus – Empresa de Capital fechado. Fluxus é uma empresa de capital fechado pertencente a holding J&F dos irmãos Batistas (da JBS). O fundador e CEO da empresa é o Ricardo Savini – que também fundou a 3R Petroleum (que acabou por se tornar a Brava após a fusão com a Enauta). Não bastando ter fundado uma empresa de redesenvolvimento de petróelo, é importante mencionar que o executivo trabalhou por muitos anos na Venezuela. Acreditamos que esse case deva ser acompanhado de perto como um possível veículo de investimentos a eventuais oportunidades na Venezuela.
Fizemos uma longa apresentação sobre o tema com toda a equipe da Genial. Espero que aproveitem.

