Conclusão
Seguimos com recomendação de COMPRAR. Sabesp reportou um resultado mais fraco no 2T26, com lucro líquido ajustado de R$ 1,2 bilhão, queda de 41,2% a/a, e EBITDA ajustado de R$ 3,5 bilhões, retração de 3,2% a/a, apesar do crescimento de 6,7% na receita líquida ajustada de serviços de saneamento. Em nossa visão, o trimestre não altera a tese estrutural de longo prazo, que segue apoiada em universalização, expansão da base de ativos regulatórios, ganhos de eficiência e transformação operacional pós-privatização, mas mostra que a jornada não será sem sobressaltos. A combinação de menor consumo per capita, piora de mix, aumento de custos ligados à agenda de atendimento ao cliente, pressão em materiais de tratamento e maior despesa financeira reduziu a capacidade de conversão do crescimento de receita em EBITDA e lucro. Por outro lado, a manutenção de R$ 3,7 bilhões em investimentos no trimestre e R$ 7,5 bilhões no primeiro semestre reforça que a companhia segue executando o plano de universalização, com expectativa de cerca de R$ 20 bilhões de capex em 2026. Por enquanto, vamos manter o rating inalterado. Importante mencionar que esse é o primeiro resultado trimestral que a empresa reporta desde a sua privatização que podemos categorizar como fraco.
Projetos e o que esperar daqui por diante. Os principais gatilhos de valor seguem concentrados em universalização, reconhecimento regulatório dos investimentos, eficiência operacional, digitalização, melhora da experiência do cliente e resiliência hídrica. A companhia reiterou confiança no cumprimento das metas de Fator-U de 2026 e manteve a expectativa de capex anual de cerca de R$ 20 bilhões. Esse ponto é essencial para a tese, pois a Sabesp precisa demonstrar simultaneamente capacidade de execução física, disciplina financeira e eficiência operacional para que o mercado continue atribuindo valor ao ciclo de investimentos.
O trimestre também reforçou a importância da agenda de clientes. A companhia acelerou melhorias nos canais de atendimento, modernização de plataformas de serviço, soluções digitais, comunicação proativa e suporte aos consumidores. Embora essas iniciativas tenham pressionado custos no curto prazo, elas podem gerar valor em três frentes: redução de inadimplência, menor atrito comercial e melhora da qualidade percebida do serviço, fatores relevantes em um modelo regulado no qual satisfação do cliente, indicadores de qualidade e cumprimento contratual tendem a ganhar peso crescente.
Em síntese, o 2T26 foi um trimestre de execução preservada, mas com pressão relevante de margem e lucro. A tese de longo prazo permanece de pé, sustentada por capex, universalização e transformação operacional, mas o resultado mostra que a captura de valor será gradual e sujeita a ruídos de curto prazo. Para os próximos trimestres, os principais pontos de monitoramento serão: evolução do consumo per capita, mix de clientes subsidiados, trajetória de custos com serviços e materiais de tratamento, alavancagem, custo da dívida, validação regulatória dos investimentos e capacidade da companhia de transformar maior capex em expansão sustentável da base remunerada
Resultado 2T26
A receita líquida ajustada de serviços de saneamento, considerando FAUSP e impostos, totalizou R$ 6,0 bilhões no 2T26, avanço de 6,7% em relação ao 2T25. O crescimento foi sustentado principalmente pelo efeito de preço líquido, que contribuiu positivamente em 8,7%, refletindo reajuste tarifário de 9,9%, parcialmente compensado por maior volume de reformas. A leitura para a tese é ambivalente: por um lado, a Sabesp segue capturando reajustes tarifários relevantes e recomposição de preços, o que reforça a resiliência do modelo regulado; por outro, o crescimento de receita foi pressionado por menor consumo per capita e deterioração do mix.
Drivers de Valor. O volume faturado consolidado somou 1.108 milhões de m³ no 2T26, crescimento de 0,8% a/a, enquanto a tarifa média consolidada avançou 9,4%, para R$ 6,01/m³. A leitura é que a Sabesp segue capturando recomposição tarifária e melhor precificação em categorias de maior tarifa média, especialmente industrial e comercial, o que ajuda a mitigar parcialmente a pressão de mix oriunda da expansão de tarifas sociais.
Do lado de volume, o crescimento foi modesto. A companhia atribuiu contribuição positiva de 1,1% ao volume, explicada por novas economias, com impacto de 1,0%, e troca de hidrômetros, com contribuição de 0,6%, parcialmente compensadas por efeito climático negativo de 1,1%. Esse ponto é importante porque reforça uma característica central do setor: em saneamento, crescimento físico tende a ser mais função de expansão de cobertura e medição correta do que de consumo per capita. Em um trimestre de temperaturas mais amenas, a demanda unitária ficou pressionada, reduzindo o efeito positivo de novas ligações.
A dinâmica de conexões ficou marginalmente negativa na comparação anual, com 9,487 milhões de ligações de água, queda de 0,2% a/a, e 8,230 milhões de ligações de esgoto, queda de 0,1% a/a. Essa queda nas ligações ativas cadastradas contrasta com a narrativa de universalização e sugere que o crescimento de economias, regularização, reformas, troca de medidores e melhoria de cadastro podem ser variáveis mais relevantes do que o número agregado de ligações no curto prazo. Esperamos ter maiores detalhes sobre essa questão na teleconferência de resultados no dia de amanhã.
O EBITDA ajustado totalizou R$ 3,5 bilhões no 2T26, queda de 3,2% a/a, com margem EBITDA ajustada de 58%, retração de 5,9 p.p. frente ao 2T25. A contração de margem, apesar do crescimento da receita, reflete pressão relevante de custos e despesas, principalmente serviços, despesas gerais e materiais de tratamento. Em nossa visão, esse é o principal ponto negativo do trimestre, pois sinaliza que parte da agenda de transformação tem custo inicial relevante antes de se converter em ganhos de eficiência, qualidade de serviço e potencial redução de perdas ou inadimplência.
Custos e despesas ajustados somaram R$ 2,5 bilhões no 2T26, alta de 24,5% a/a. A principal pressão veio da linha de serviços, que aumentou R$ 238 milhões, ou 39,0% a/a, para R$ 848 milhões, associada à estratégia de foco no cliente, incluindo investimentos em novas lojas, reformas, novo provedor de central de atendimento, equipe dedicada de experiência do cliente e ações de marketing. Do ponto de vista estratégico, esse aumento deve ser analisado como parte da transição para uma Sabesp mais orientada a qualidade de serviço, experiência do consumidor e eficiência comercial, mas, no curto prazo, pressiona margens e reduz a visibilidade de expansão adicional de EBITDA A segunda pressão relevante veio de despesas gerais, que aumentaram R$ 143 milhões, refletindo uma base de comparação favorecida no 2T25 por vitórias judiciais e extinções de processos. Ou seja, parte da deterioração é explicada pela normalização de uma base artificialmente baixa. A terceira frente negativa foi materiais de tratamento, que cresceram R$ 83 milhões, ou 97,2% a/a, para R$ 169 milhões, pressionados por inflação de matérias-primas em um contexto de instabilidade geopolítica e interrupções nas cadeias globais de suprimentos. Em saneamento, essa linha é particularmente relevante porque a companhia tem baixa flexibilidade para reduzir uso de insumos sem comprometer qualidade e compliance operacional.
Resultado financeiro. O resultado financeiro reportado foi negativo em R$ 1,0 bilhão no 2T26, uma piora relevante frente aos R$ 118 milhões negativos do 2T25. Na métrica ajustada, o resultado financeiro foi negativo em R$ 1,1 bilhão, ante R$ 118 milhões negativos no 2T25. A deterioração reflete o maior nível de endividamento líquido da companhia, que atingiu R$ 34 bilhões no 2T26, comparado a R$ 23 bilhões no 2T25. Do ponto de vista da tese, o aumento do endividamento é consequência direta da aceleração do ciclo de investimentos e da expansão da base de ativos, e não deve ser interpretado isoladamente como deterioração estrutural. Ainda assim, a magnitude da pressão financeira mostra que a companhia entrou em uma fase em que custo da dívida, indexadores, estrutura de capital e reconhecimento regulatório dos investimentos serão tão importantes quanto a execução operacional. A dívida líquida ficou em R$34 bilhões, implicando em uma relação dívida líquida/EBITDA de 2,1x.
O lucro líquido reportado foi de R$ 1,5 bilhão no 2T26, queda de 31,4% a/a, enquanto o lucro líquido ajustado somou R$ 1,2 bilhão, retração de 41,2% a/a. A diferença entre a queda do EBITDA ajustado e a contração mais intensa do lucro líquido decorre principalmente da piora do resultado financeiro e do aumento da depreciação e amortização, que cresceu 34,5% a/a na base ajustada, para R$ 731 milhões.
Investimentos já deveriam ter começado a acelerar. Os investimentos totalizaram R$ 3,7 bilhões no 2T26, crescimento de 3,6% a/a. No acumulado do primeiro semestre, o capex atingiu R$ 7,5 bilhões, alta de 15,6% a/a. Do total investido no trimestre, R$ 1,1 bilhão foi direcionado a água, alta de 0,6% a/a, enquanto R$ 2,7 bilhões foram destinados a esgoto, crescimento de 4,8% a/a. A composição segue coerente com a lógica da universalização, dado que esgoto permanece como a maior frente de investimento absoluto e, historicamente, a área com maior necessidade de expansão de infraestrutura.
Em nossa visão, o capex segue sendo o principal gatilho de valor da tese. A Sabesp manteve a expectativa de investir cerca de R$ 20 bilhões ao longo de 2026, o que reforça a aceleração da universalização, a melhora de qualidade de serviço e o fortalecimento da resiliência operacional. O ponto central é que, em saneamento regulado, capex prudente e reconhecido tende a ampliar a base de remuneração e sustentar crescimento futuro de receita. Portanto, a execução de investimentos deve ser avaliada não apenas pelo impacto negativo de curto prazo no fluxo de caixa, mas pelo potencial de criação de valor regulatório no médio e longo prazo.

