A Vale (VALE3) divulgou o resultado financeiro do 2T26 em 30 de julho, após o fechamento. O EBITDA Proforma somou US$4.066m (+6,2% ante Est.; +19% a/a) sobre receita líquida de US$10.498m, o custo caixa C1 ex-terceiros recuou a US$24,1/t e o Conselho aprovou US$1.701m em dividendos e JCP, além de recompra de até 100 milhões de ações. Reiteramos MANTER, com Preço-Alvo 12M de R$86,00 (VALE3) e US$17,00 (ADR-NYSE).
P: Como veio o resultado da Vale (VALE3) no 2T26?
R: A mina entregou, a conta de custo veio de fora dela e o caixa voltou ao acionista — mas o placar de EBITDA depende da métrica que se olhe: acima na que a companhia destaca, abaixo na que o mercado mede. O EBITDA Proforma somou US$4.066m (+6,2% vs. Est.; +4,2% vs. consenso; +4% t/t; +19% a/a) sobre receita líquida de US$10.498m (+0,5% vs. Est.; +19% a/a), com margem de 38,7%. O EBITDA Ajustado, porém, veio a US$3.676m (−2,3% vs. Est.; −4,1% vs. consenso; −4% t/t). O lucro atribuível foi de US$1.375m (−32,3% vs. Est.) e o Proforma, US$1.566m, com a divergência abaixo do EBITDA — derivativos e câmbio sobre prejuízos fiscais —, não em linha operacional.
P: Por que o EBITDA Proforma e o Ajustado da Vale apontam em direções opostas?
R: Por uma rubrica nova. A ponte entre as duas métricas somou US$390m — US$101m de Brumadinho e US$289m de despesas não recorrentes —, vs. US$65m no 1T26 e ~US$69m no consenso. A linha ficou zerada em 2025 e no 1T26, e seu maior registro anterior foi US$214m no 4T24: esta é a maior já reportada. As demonstrações intermediárias localizam a origem — as despesas com compromissos socioambientais saltaram a US$316m no 2T26, de US$34m no 2T25 —, sem especificar a que compromisso se referem — pergunta para a teleconferência de 31/jul. A ressalva importa: numa mineradora, provisão socioambiental é recorrente por natureza, de sorte que excluí-la favorece a métrica que a companhia destaca. Expurgado o item, o desempenho vs. nossa estimativa inverte-se de superação para déficit.
P: O custo C1 da Vale no 2T26 confirmou a tese da prévia?
R: Confirmou a direção e surpreendeu favoravelmente na magnitude. O custo caixa C1 ex-terceiros encerrou em US$24,1/t, −4,4% vs. os US$25,2/t Est. e −4,0% vs. o consenso — nossa premissa e a da rua, igualmente conservadoras. O frete unitário veio a US$22,0/t contra US$22,3/t Est., desvio de 1,3% vs. Est., ao passo que o consenso projetava US$23,4/t — 6,0% acima do reportado. À régua de US$1/t de C1 por US$62,5m de EBITDA, nossa premissa subtraiu ~US$69m do resultado projetado.
P: Se o custo do trimestre veio melhor, por que a Vale elevou o guidance de 2026?
R: Porque a conta não é da mina: a pressão é exógena e recai sobre o ano, não sobre o trimestre. A decomposição do custo dos finos a/a é inequívoca: no C1, US$103m provêm de câmbio e US$65m de volume, ao passo que o custo genuíno cedeu US$11m; no frete, US$231m vêm de outros fatores, essencialmente bunker; somam-se US$123m em distribuição e US$124m em royalties. Da elevação de US$701m nos custos totais antes de depreciação, a operação não responde por parcela adversa alguma. A companhia revisou o C1 2026 para US$22,5–23,5/t, de US$20,0–21,5/t, e o custo all-in para US$58–62/t, de US$52–56/t, assumindo USD/BRL de 5,13 e Brent de US$86/bbl.
P: A revisão de guidance da Vale nos obriga a cortar estimativas?
R: Não, e nisto reside a assimetria central desta nota. Nossa curva de C1 para 2026 — US$23,6/t, US$25,2/t, US$21,7/t e US$21,9/t ao longo dos trimestres — pondera em US$23,0/t no ano pelos volumes próprios, exatamente o ponto médio da faixa nova e US$2,25/t acima do ponto médio da faixa anterior. Jamais operamos com o guidance antigo. Substituído o 2T26E pelo reportado, nosso C1 2026E acomoda-se em US$22,75/t, dentro do intervalo revisado. O que o mercado tenderá a ler como surpresa negativa é, sob nossa ótica, convergência da companhia ao patamar que já subscrevíamos.
P: Como se comportaram os segmentos da Vale no 2T26?
R: Metais básicos sustentaram o trimestre; pelotas seguem em erosão. Soluções de Minério de Ferro entregou EBITDA de US$3.056m (+4,8% vs. consenso; +5% t/t), com finos a US$2.561m e pelotas recuando a US$416m (−13% t/t; −13% a/a), em trajetória descendente desde o 4T24. A Vale Metais Básicos somou US$1.289m (+79% a/a), cravada no consenso, com cobre a US$1.026m (+1,1% vs. consenso) e níquel a US$294m (−6,1% vs. consenso). Os custos all-in de cobre e níquel foram revisados para US$0–500/t e US$10.000–11.500/t, com guidances de produção elevados no piso — melhora que decorre das receitas de subprodutos, com o ouro a US$4.390/oz, não de ganho estrutural.
P: Quanto a Vale vai pagar de dividendos e JCP do 2T26?
R: O trimestre converteu resultado em caixa, e caixa em remuneração. O fluxo de caixa livre recorrente alcançou US$1.505m (+85% t/t; +49% a/a), com capital de giro consumindo apenas US$162m vs. US$863m no 1T26 e despesas financeiras líquidas positivas em US$26m, a refletir entrada de US$337m na liquidação de derivativos. A dívida líquida expandida recuou a US$16.677m (−6% t/t) e a dívida líquida, a US$13.173m, ou 0,8x o EBITDA Proforma LTM. O Conselho aprovou US$1.701m em dividendos e JCP — R$2,0307/ação, ex em 12/ago, pagamento em 2/set — e recompra de até 100 milhões de ações, 2,3% do capital, vigente de 19/ago/26 a 29/jan/28. Em contrapeso, US$717m de saída com Samarco.
P: O que o resultado 2T26 muda na recomendação de VALE3?
R: Reiteramos MANTER, com Preço-Alvo 12M de R$86,00 (VALE3) e US$17,00 (ADR-NYSE), e substituímos o gatilho. Nossa prévia condicionou eventual elevação a três confirmações: recomposição de volumes, resiliência de prêmios e caráter transitório do pico de custo. As duas primeiras materializaram-se; a terceira foi expressamente negada pela companhia, que reprecificou o custo do ano por fatores macroeconômicos. Elevar a recomendação hoje seria abandonar critério que subscrevemos há duas semanas. Acresce que, aos R$76,09 do fechamento de 30/jul, o papel já avançou 5,3% desde nossa nota do resultado operacional, de sorte que o retorno vs. o alvo comprimiu-se de +19,0% para +13,0%; somado ao dividend yield de 6,7% 26E, o retorno total aproxima-se de 20%. O alvo não se move porque as revisões se anulam: dívida líquida menor e antecipação de projetos valem entre R$0,47 e R$1,35 por ação, ao passo que o real mais forte corta o valor em reais de uma geradora de caixa em dólar.
Ajustamos 2026E para receita de US$41.150m e EBITDA Proforma de US$16.400m, elevação de 1,5% vs. a edição anterior que se limita a incorporar o 2T26, sem alterar premissa do 2S26. Preservamos a produção em 340Mt: os 153,9Mt do 1S26 exigem 186,1Mt no 2S26, apenas +0,7% a/a vs. os 184,8Mt do 2S25 — exigência que não nos parece esticada. O gatilho passa a ser a conjugação de retorno ao acionista e antecipação de projetos, com Bacaba deslocado do 1S28 para o 3T27 e Serra Sul +20 em comissionamento: variáveis que dependem de execução, não de aposta cambial nossa.



