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    Publicado em 14 de Agosto às 00:04:55

    Banco BMG (BMGB4) | Resultado 2T26: O Mix Entrega a Margem, o Imposto Entrega o Lucro  

    O BMG entregou um resultado ligeiramente abaixo das nossas estimativas, mas que consideramos razoável diante da mudança regulatória particularmente adversa para sua principal franquia. O lucro líquido recorrente foi de R$ 157 milhões (-2,4% vs. Est.; +6,8% t/t; +25,6% a/a), com ROE de 15,5% (+0,1 pp vs. Est.; +0,2 pp t/t; +1,2 pp a/a). A melhora sequencial veio da margem, beneficiada pela migração para produtos mais rentáveis, enquanto o custo de crédito permaneceu elevado e a carteira total voltou a apresentar leve retração. A companhia reporta ROAE de 15,2% no acumulado do semestre, ante 14,4% em 2025 e 10,7% em 2024.

    A qualidade do crescimento do lucro, porém, continua sendo um ponto de atenção. Apesar do avanço de 25,6% a/a na última linha, o resultado antes dos impostos recuou 12,2% a/a, para R$ 202 milhões. A diferença veio essencialmente da alíquota efetiva de apenas 2%, contra 21% no 2T25, beneficiada principalmente por JCP e Lei do Bem. Operacionalmente, a Margem Financeira após o Custo do Crédito cresceu apenas 1,6% a/a, enquanto a PDD líquida avançou 27,6% a/a. Assim, o lucro continua crescendo mais rápido do que a operação que o sustenta.

    Mais importante para a tese, o trimestre marca o início de uma transformação estrutural do balanço. O cartão consignado, historicamente uma das principais franquias do BMG, enfrenta restrições à originação e uma mudança regulatória que reduzirá progressivamente sua relevância. Desde 29 de abril, novas concessões de cartão consignado e cartão benefício do INSS estão suspensas por determinação do TCU, enquanto a MP 1.355/2026 prevê a redução gradual das margens adicionais destinadas aos cartões até sua eliminação para novas operações em 2029. No 2T26, a carteira desses produtos recuou 5,5% t/t, para R$ 12,7 bilhões, também impactada pela cessão realizada no período.

    A resposta do BMG tem sido acelerar a migração para consignado privado e crédito pessoal, produtos de maior retorno ajustado ao risco, mas também com maior consumo inicial de provisões. O consignado privado atingiu R$ 1,29 bilhão (+47,2% t/t), enquanto o crédito pessoal chegou a aproximadamente R$ 1,92 bilhão. Consideramos a direção estratégica correta e, nesse contexto, a capacidade de preservar margem e rentabilidade enquanto sua principal franquia começa a ser substituída é um ponto positivo do resultado.

    O principal limitante dessa transição continua sendo capital. Mesmo após o aumento de capital de R$ 214 milhões homologado em abril, o Capital Principal encerrou em 9,7% e o Nível I em 10,1%, deixando pouca folga para acelerar justamente as linhas de maior consumo de capital. Nesse contexto, as cessões de carteira passam a fazer parte da equação de crescimento: liberam RWA e permitem reciclar capital para novas originações, mas também evidenciam que o crescimento orgânico continua condicionado à capacidade do banco de liberar ou levantar capital.

    A rentabilidade também permanece abaixo de outros bancos especializados. O Banco Mercantil reportou ROAE de 42,7% no 1T26, enquanto o Agibank apresentou 26,1%, mesmo já incorporando ao patrimônio os recursos captados no IPO de fevereiro. Frente a esses pares, os 15,5% de ROE do BMG ainda parecem modestos, sobretudo considerando a contribuição relevante dos benefícios tributários para o lucro. Embora os modelos de negócio não sejam diretamente comparáveis, a diferença reforça o desafio central: transformar o maior RAROC das novas linhas em maior ROE consolidado, sem pressionar excessivamente capital e custo de crédito.

    Reiteramos Nossa Recomendação de MANTER

    Reiteramos nossa recomendação de MANTER, com preço-alvo de R$ 5,50. O desafio do BMG deixa gradualmente de ser defender o cartão consignado e passa a ser provar que existe um banco igualmente rentável depois dele. A direção estratégica nos parece correta, mas sua execução esbarra no que consideramos o principal limitante da tese: capital. Existe oportunidade para crescer em produtos de maior retorno; falta, por enquanto, capital disponível para capturá-la em escala. O papel negocia com múltiplos atraentes de 4,9x P/L 2026e, 4,4x P/L 2027e e 0,7x P/VP 2026e.

    Resultado 2T26: Margem Melhor no Mix, Composição Pior no Resultado

    Principais Destaques do Trimestre

    Carteira de Crédito: Estável no Consolidado, Mas com Forte Mudança de Mix. A carteira encerrou junho em R$ 24,1 bilhões (-0,1% vs. Est.; -0,2% t/t; -4,0% a/a). A estabilidade, porém, esconde uma transformação relevante. A direção do mix nos parece correta do ponto de vista de retorno, mas aumenta a importância da execução em crédito: o banco está substituindo ativos de menor risco por produtos de maior spread e maior inadimplência esperada. A carteira de cartões consignados caiu para R$ 12,7 bilhões, impactada pela cessão realizada no trimestre, enquanto o consignado privado atingiu R$ 1,29 bilhão (+47,2% t/t) e o crédito pessoal R$ 1,92 bilhão.

    • Consignado INSS e Público: recuou para R$ 16,6 bilhões (-3,7% t/t; -3,9% a/a), também refletindo a cessão de carteira sem retenção de riscos e benefícios realizada no trimestre. Dentro dessa carteira, os cartões consignado e benefício somaram R$ 12,7 bilhões, pressionados pela menor originação e pela cessão;
    • Varejo PF: avançou para R$ 3,8 bilhões (+14,3% t/t; +39,5% a/a), refletindo justamente a migração para as novas avenidas de crescimento;
      • Consignado Privado: atingiu R$ 1,29 bilhão (+47,2% t/t), tornando-se um dos principais vetores de originação e de substituição gradual dos produtos ligados ao INSS;
      • Crédito Pessoal: alcançou R$ 1,92 bilhão (+5,2% t/t; +30,6% a/a), reforçando a estratégia de crescimento em linhas de maior retorno ajustado ao risco;
    • FGTS e Estados Unidos: seguem em desmobilização. A antecipação do FGTS caiu para R$ 199 milhões (-72,2% a/a), enquanto o consignado nos Estados Unidos recuou para R$ 1,10 bilhão (-52,6% a/a).

    Margem Financeira: Mix Mais Rentável Começa a Compensar a Menor Exposição ao INSS. A margem financeira atingiu R$ 1,51 bilhão (+1,4% vs. Est.; +2,8% t/t; +4,8% a/a), com NIM de 15,7% (+0,3 p.p. vs. Est.; +0,3 pp t/t; +0,5 pp a/a). O desempenho foi sustentado pelo crescimento das receitas de crédito, que avançaram 8,6% t/t e 5,3% a/a, para R$ 2,21 bilhões, mais do que compensando a alta do custo de captação. Segundo o banco, a melhora da margem após custo de crédito refletiu justamente a maior exposição a produtos de crédito mais rentáveis. A dinâmica é especialmente importante porque mostra que a substituição do cartão consignado começa a funcionar pelo lado da receita antes de aparecer no crescimento da carteira.

    Custo de Crédito: Estável, Mas Pressão Continua Elevada. O custo de crédito ficou em 6,3% (-0,1 pp vs. Est.; -0,1 pp t/t; +1,7 pp a/a). A PDD líquida foi de R$ 379 milhões (-1,6% vs. Est.; +0,5% t/t; +27,6% a/a), com provisões brutas de R$ 437 milhões (+0,9% t/t; +13,5% a/a). A estabilidade sequencial é relativamente positiva considerando a aceleração de crédito pessoal e consignado privado, mas ainda é cedo para concluir que o novo mix atingiu sua perda normalizada. No consignado privado, especialmente, a rápida expansão tende a antecipar provisões frente à geração de receita, criando uma curva J no resultado das novas safras. A Carteira de Crédito Estágio 3 cresceu para 6,4% (+0,4 pp vs. Est.; +0,4 pp t/t; +0,4 pp a/a), com o Índice de Cobertura recuando de 177% para 162%.

    Comissões: Menor Originação Ajuda o Resultado no Curto Prazo. As despesas com comissões caíram para R$ 227 milhões (-1,1% vs. Est.; -5,8% t/t; -11,0% a/a), acompanhando a menor originação de produtos tradicionais. Com isso, a margem após custo de crédito e comissões avançou 6,1% t/t, para R$ 905 milhões. A melhora é positiva, embora parte dela seja consequência justamente da menor atividade em produtos que historicamente sustentaram o crescimento do banco.

    Despesas: Core Bem Comportado, Mas Outras Despesas Operacionais Seguem Pressionando. As Outras Receitas/Despesas Operacionais totalizaram -R$ 704 milhões (+3,0% vs. Est.; +4,6% t/t; +6,7% a/a), com a pressão concentrada principalmente nas despesas tributárias e em outras despesas operacionais, enquanto pessoal e administrativas apresentaram dinâmica mais favorável.

    • Despesas de Pessoal: R$ 119 milhões (-8,4% vs. Est.; -9,2% t/t; +7,2% a/a), com melhora sequencial relevante;
    • Despesas Administrativas: R$ 296 milhões (-0,5% vs. Est.; +0,7% t/t; -1,3% a/a), praticamente estáveis;
    • Despesas Tributárias: R$ 86 milhões (+18,0% vs. Est.; +19,4% t/t; +28,4% a/a), principal pressão incremental no trimestre;
    • Outras Receitas/Despesas Operacionais: -R$ 213 milhões (+12,0% vs. Est.; +16,4% t/t; +10,9% a/a), ainda pressionadas pelas contingências cíveis massificadas. Dentro da linha, a Provisão Operacional Líquida foi de R$ 161 milhões, praticamente estável t/t, mas +8,8% a/a.

    Impostos: Benefício Continua Relevante para o ROE Reportado. O BMG registrou apenas R$ 5 milhões de IR/CSLL no trimestre, equivalente a uma alíquota efetiva próxima de 2%, contra 21% no 2T25. Assim, embora o lucro tenha crescido +25,6% a/a, o resultado antes dos impostos recuou -12,2% a/a, de R$ 230 milhões para R$ 202 milhões. Esse é um ponto importante para a leitura da rentabilidade: parte relevante do crescimento do lucro ainda vem abaixo do EBT, principalmente pelo benefício fiscal associado ao JCP e demais créditos tributários, e não da expansão do resultado operacional.

    Capital: Ainda é o Principal Gargalo da Tese. O Capital Principal terminou o trimestre em 9,7% (+0,3 pp t/t), o Nível I em 10,1% (+0,3 pp t/t) e Basileia em 13,3% (+0,4 pp t/t). Apesar da melhora, os níveis continuam apertados, sobretudo diante da migração para produtos de maior risco e da necessidade de crescimento. O aumento de capital de R$ 214 milhões homologado em abril ajudou os índices, mas as cessões de carteira continuam sendo necessárias para liberar RWA e abrir espaço para novas originações.

    Regulação: O Fim Gradual de uma Franquia Histórica

    A principal mudança para a tese do BMG não está propriamente na DRE do 2T26. Está na regulamentação.

    Historicamente, aposentados e pensionistas do INSS dispunham de 35% de margem para empréstimos, 5% exclusivos para cartão de crédito consignado e outros 5% exclusivos para cartão consignado de benefício, totalizando 45%. A MP 1.355/2026 reduziu a margem global para 40% e retirou a exclusividade das margens dos cartões. Além disso, determinou redução progressiva de 2 pp ao ano, com os sublimites dos cartões caindo para 3% em 2027, 1% em 2028 e zero em 2029, quando novas contratações desses produtos ficam vedadas.

    Isso muda estruturalmente a economia do BMG. O banco foi pioneiro no cartão de crédito consignado em 2005 e introduziu o cartão consignado de benefício em 2022; os dois produtos fazem parte do núcleo histórico de sua estratégia. Hoje, R$ 12,7 bilhões dos R$ 24,1 bilhões da carteira ainda estão em cartões consignados, com aproximadamente 90% dessa exposição ligada ao INSS.

    A boa notícia é que o estoque não desaparece em 2029: a MP preserva os contratos existentes até sua liquidação, o que torna o processo de runoff gradual e dá ao BMG tempo para substituir a geração de resultado. A má notícia é que o banco precisa construir essa substituição enquanto administra simultaneamente maior risco de crédito, necessidade de cessões e pouco excesso de capital.

    É justamente por isso que avaliamos o 2T26 como melhor do que a leitura superficial poderia sugerir. A carteira não cresceu, a inadimplência aumentou e o lucro ficou ligeiramente abaixo da nossa projeção. Ainda assim, a margem avançou, o banco começou a deslocar capital para crédito pessoal e consignado privado e entregou ROE de 15,5% justamente no trimestre em que o seu principal produto sofreu o maior choque regulatório dos últimos anos.

    O desafio agora deixa de ser defender o cartão consignado e passa a ser provar que existe um BMG igualmente rentável depois dele. E, nesse processo, acreditamos que o capital — mais do que demanda — será o principal fator limitante.

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