Apesar da melhora, ainda que marginal, da rentabilidade do Banco do Brasil no trimestre, nossa avaliação do 2T26 é de uma piora na qualidade do resultado. O lucro líquido ajustado alcançou R$ 3,9 bilhões (+6,9% vs. Est.; +13,9% t/t; +3,3% a/a) e o ROE subiu para 8,3%, ante 7,3% no 1T26, mas seguimos vendo uma rentabilidade muito abaixo do custo de capital e, principalmente, uma dinâmica de crédito ainda frágil.
A principal mudança do trimestre foi a migração das preocupações com qualidade de crédito do Agro para a Pessoa Física. No agronegócio, os indicadores finalmente mostraram sinais de estabilização, com inadimplência praticamente estável e queda na formação de novos NPLs. Em PF, porém, a deterioração acelerou de forma relevante: a inadimplência acima de 90 dias saltou de 6,82% no 1T26 para 8,41%, enquanto o New NPL praticamente dobrou, para R$ 11,8 bilhões, com cobertura de New NPL PF de apenas 65,9%. A inadimplência de curto prazo (30d+) também avançou para 11,42% (+2,12 pp t/t), sinalizando que a pressão sobre a carteira ainda pode persistir nos próximos trimestres, ao mesmo tempo em que o banco continuou consumindo cobertura. Fomos particularmente surpreendidos pela velocidade e intensidade da deterioração em cartões de crédito, cuja inadimplência mais que dobrou em apenas um trimestre, saltando de 7,1% no 1T26 para 14,58% no 2T26.
Índice de Inadimplência (+90 dias) | 2T26: Pressão Migra do Agro para a Pessoa Física

Essa dinâmica reforça a leitura que vínhamos construindo nos últimos resultados. Ao longo de 2025, já destacávamos sinais de deterioração em PF, enquanto, no 1T26, argumentávamos que a recuperação do banco deveria ocorrer em “W”, e não de forma linear, diante da persistência do custo de crédito e do risco de pressão em outras carteiras além do Agro. O 2T26 reforça essa tese: o Agro parece ter encontrado um primeiro ponto de estabilização, após duas Medidas Provisórias voltadas à renegociação e ao alívio financeiro do setor, mas a deterioração agora observada em PF sugere que a normalização do ciclo de crédito pode levar mais tempo do que inicialmente imaginávamos.
O resultado acima da nossa estimativa também merece uma leitura cuidadosa. O custo do crédito caiu 2,1% t/t, para R$ 18,5 bilhões, mas a despesa bruta de perda esperada aumentou 13,5% t/t, sendo compensada por maiores recuperações de crédito e menores descontos concedidos após a concentração das renegociações do BB Regulariza Agro no início do ano. Assim, a melhora sequencial do lucro não representa, por enquanto, uma melhora equivalente do risco.
Em nossa visão, o 2T26 representa um passo à frente em relação ao início do ano, mas ainda não a inflexão definitiva que esperávamos para o Banco do Brasil. A partir daqui, a tese passa a depender menos da confirmação do pico de deterioração no Agro e mais de entender se a piora observada em PF — sobretudo em cartões — será transitória ou exigirá uma nova rodada de provisões ao longo do 2S26.
Uma sinalização mais positiva veio da manutenção do guidance, apesar da piora observada em PF. O custo do crédito acumulou R$ 37,3 bilhões no 1S26 e, considerando o ponto médio do guidance anual, de R$ 67,5 bilhões, a companhia implicitamente aponta para cerca de R$ 30,2 bilhões no 2S26, uma queda de aproximadamente 19% em relação ao primeiro semestre. A manutenção das projeções sugere, portanto, que o banco ainda espera uma melhora relevante do custo de crédito na segunda metade do ano. A questão passa a ser se a estabilização do Agro será suficiente para compensar a deterioração que começa a aparecer em outras carteiras.
Resultado 2T26: Lucro em Recuperação, Qualidade de Crédito em Deterioração

Os principais destaques do trimestre foram:
- Carteira de Crédito: Crescimento Fraco, com Mudança de Mix. A carteira expandida alcançou R$ 1,313 trilhão (0,0% vs. Est.; +0,6% t/t; +1,5% a/a), mantendo ritmo bastante moderado. A carteira de PF recuou 1,2% t/t, primeira contração sequencial do ciclo, apesar do avanço do consignado privado sobre uma base ainda pequena. Em PJ, a carteira cresceu 2,7% t/t, embora MPMEs ainda recuem 9,3% a/a. Já o Agro avançou 0,8% t/t, beneficiado pelo BB Regulariza Agro, que alcançou R$ 39,3 bilhões no trimestre. Sem o programa, a dinâmica da carteira seria ainda mais fraca.
- Margem Financeira: Clientes Compensam Menor Resultado de Mercado. A margem financeira bruta somou R$ 27,5 bilhões (-0,5% vs. Est.; +0,2% t/t; +9,6% a/a). A composição foi positiva: a margem com clientes avançou 2,2% t/t, com spread de 8,36%, enquanto a margem com mercado recuou 10,2% t/t. No 1S26, a margem financeira acumula crescimento de 12,1% a/a, acima do teto do guidance de 7% a 11%, permanecendo como um dos principais pontos positivos do resultado.
- Qualidade de Crédito: Pressão Migra do Agro para PF. A inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,61% (+56 bps t/t; +165 bps a/a), acima dos 5,2% que projetávamos. Mais importante do que a deterioração do consolidado, porém, foi sua composição: o Agro mostrou os primeiros sinais de estabilização, enquanto PF passou a concentrar a piora do trimestre.
- Agronegócio: Primeiros Sinais de Estabilização. A inadimplência 90+ encerrou o trimestre em 6,27% (+5 bps t/t; +312 bps a/a), praticamente estável após sucessivos trimestres de deterioração. A melhora também aparece na formação de novos NPLs e na recuperação da cobertura para 165,2%, sugerindo que o segmento pode estar se aproximando de um ponto de inflexão. Ainda assim, preferimos manter cautela: R$ 82,3 bilhões da carteira vencem no 2S26, período importante para confirmar essa estabilização, enquanto a MP 1.376/2026 pode contribuir para as renegociações, mas mantém o risco de crédito com as instituições financeiras.
- Pessoa Física: Principal Surpresa Negativa do Trimestre. A inadimplência 90+ saltou de 6,82% para 8,41% t/t (+159 bps), enquanto o New NPL praticamente dobrou para R$ 11,8 bilhões. A deterioração foi particularmente forte em cartões de crédito, cuja inadimplência passou de 7,1% para 14,58% em apenas um trimestre. Além disso, o indicador de curto prazo (30d+) avançou para 11,42% (+212 bps t/t), sugerindo que a pressão pode continuar nos próximos meses. Ao mesmo tempo, a cobertura de PF recuou para 125,8%, reforçando nossa cautela sobre a evolução do custo de crédito no 2S26.
Índice de Cobertura | 2T26: Menor patamar desde 2017; Melhora no Agro Contrasta com Queda em PF

- Custo do Crédito: Melhora no Headline, mas Composição Ainda Preocupa. O custo do crédito recuou para R$ 18,5 bilhões (-3,7% vs. Est.; -2,1% t/t; +16,1% a/a), mas a melhora sequencial veio principalmente de maiores recuperações e menores descontos concedidos, enquanto a despesa bruta de perda esperada aumentou 13,5% t/t. O New NPL consolidado avançou para R$ 21,7 bilhões (+40,7% t/t; +37,3% a/a), enquanto a cobertura total recuou para 148,5% (-9,9 pp t/t), menor patamar desde 2017. A manutenção do guidance é uma sinalização positiva, mas aumenta a exigência para o 2S26: após R$ 37,3 bilhões de custo de crédito no primeiro semestre, o ponto médio do guidance implica aproximadamente R$ 30,2 bilhões no segundo semestre, queda de cerca de 19% s/s.
- Receitas de Serviços: Crescimento Saudável e Dentro do Guidance. As receitas de serviços somaram R$ 9,1 bilhões (+1,9% vs. Est.; +3,4% t/t; +4,2% a/a), com crescimento em administração de fundos (+6,3% t/t), conta corrente (+7,6%) e consórcios (+5,6%). Em sentido contrário, seguros, previdência e capitalização recuaram -4,5% t/t e cartões, -2,5%. No semestre, as receitas avançam 4,9% a/a, dentro do guidance de 2% a 6%.
- Despesas: Controle Segue Positivo. As despesas administrativas ficaram em R$ 10,1 bilhões (-1,9% vs. Est.; +0,6% t/t; +4,1% a/a), mantendo crescimento abaixo do guidance anual de 5% a 9%. O índice de eficiência permaneceu saudável em 28,0%. Parte da estabilidade das despesas de pessoal, entretanto, contou com reversões de provisões administrativas, enquanto proventos avançaram 19,4% t/t, o que sugere alguma aceleração da linha nos próximos trimestres.
- Impostos: Menos Relevantes para a Formação do Lucro. O crédito de IR/CSLL foi de R$ 258 milhões, bem abaixo dos R$ 1,1 bilhão do 1T26. Diferentemente dos últimos trimestres, portanto, a melhora sequencial do lucro dependeu menos da linha tributária, tornando mais transparente a evolução operacional do banco.
- Capital: CET1 Recua e Merece Acompanhamento. O Capital Principal encerrou o trimestre em 11,27% (-32 bps t/t), enquanto o índice de Basileia ficou em 13,91%. A posição segue confortável frente aos requerimentos regulatórios, mas a redução do CET1 merece atenção diante da piora recente da qualidade de crédito em PF. O lucro contribuiu com +22 bps para o capital, mais do que compensado por ajustes prudenciais (-37 bps) e pelo efeito atuarial (-18 bps), com impacto praticamente neutro dos RWA. Com payout de 30% para 2026 e maior necessidade potencial de provisões caso a deterioração de PF persista, vemos menor espaço para uma recuperação mais forte do CET1 no curto prazo.


