A surpresa que ninguém quer!
A Via divulgou seus resultados do 3T21 pegando o mercado de surpresa. O maior destaque foi para o reforço da provisão trabalhista, resultando no impacto de R$ 1 bilhão no EBITDA e revertendo o lucro observado nos últimos trimestres para o prejuízo contábil de R$ -638 milhões. Excluindo os efeitos trabalhistas, o destaque positivo ficou para o e-commerce, especialmente o marketplace (3P). As vendas digitais representaram 60% do GMV total do grupo que atingiu a marca de R$ 11,1 bilhões (+6% a/a). O maior crescimento foi para o marketplace (+133% a/a), que superou os R$ 2 bilhões em vendas totais. Enxergamos isso como o reflexo do destravamento do processo de onboarding, que contribuiu para a companhia passar de 10k sellers na plataforma no início do ano, para os 100k atingidos no 3T21. Quando olhamos para o 1P, observamos o crescimento moderado de aproximadamente 10% a/a, refletindo a força das marcas e a contínua expansão de sua omnicanalidade. Com isso, o GMV online total somou R$ 5,9 bilhões no trimestre (+33,4%), valor impressionante considerando a forte base comparativa, fruto das melhorias nos prazos de entrega, maior assertividade comercial e pela entrada de novas categorias de produtos, resultando em ganhos contínuos de market share.
Operacionalmente, o destaque negativo ficou para as lojas físicas. Representando 57% da receita total, o segmento registou a queda de -16,6% a/a e de -13,8% no critério ‘vendas mesmas lojas’, contribuindo assim para o recuo de -6,7% da receita consolidada. Essa queda pode ser explicada pelo fechamento de 100 lojas nos últimos 9 meses, bem como o cenário macro adverso, resultando em juros e inflação em patamares bem elevados, impactando no poder de compra do consumidor. Entretanto, vale mencionar que a companhia deve abrir 72 novas lojas no 4T21, devendo contribuir para a melhora do canal, apesar do cenário adverso.
Afinal o que são esses processos trabalhistas ?
Um breve histórico
A Via tem adotado posturas desde 2011 que visavam melhorar a rentabilidade, incluindo a redução de 39% do seu quadro de colaboradores. Desde 2011 foram realizadas 190k demissões, sendo 45k estruturantes e 145k o turnover natural do período. Essas demissões impactaram fortemente as entradas de processos trabalhistas, principalmente nos anos de 2016 e 2017. Fazendo parte do legado da companhia, eles vinham reduzindo o número de processos, que passaram de 44k atingidos em 2017 para 22k em 2020. Nos últimos 5 anos, o montante vinha reduzindo, porém voltou a tomar força em 2021.
Segundo a companhia, a decisão em aumentar a provisão se baseou em dois fatores. Primeiramente, houve a aceleração no ritmo de entrada de novos processos (+82% no 1S21 vs. 1S20). Isso pode ser explicado pelo aumento da atividade de profissionais especializados na captação de demandas trabalhistas (50% dos novos processos em 2021), que se beneficiam do cenário macroeconômico adverso com recessão econômica, bem como do alvo ‘fácil’ que a Via havia se tornado (gestão de processos ineficiente, com um departamento para lidar com os processos trabalhistas das 3 antigas subsidiárias – Via, Assaí e GPA). Por último, observou-se também um aumento no ticket médio (+32% 2021-20 vs. 2020-19) devido a mudança do perfil das condenações, que se tornaram os efeitos remanescentes das demissões estruturantes, lembrando que são processos mais caros, mais antigos e de colaboradores com cargos de valores mais elevados.
E agora?
Segundo a companhia, eles contrataram uma consultoria especializada que realizou um diagnóstico completo e elaborou um plano de ação que já está em fase de execução. Os principais pontos destacados foram: aprimoramento da estrutura e forma de condução dos processos, eliminando assim fragilidades/ gaps operacionais atuais; estruturação de comitê semanal para acompanhamento dos casos trabalhistas, com participação do CEO, CFO, COO e CHRO + Diretor Jurídico no comitê e definição de uma nova política contábil para melhor estimativa de risco.
Em relação ao último tópico, a companhia possui créditos tributários no valor de R$ 9,5 bilhões, acumulados pela operação natural da Via nos últimos anos, bem como frutos de ações judiciais com desfechos favoráveis. O Objetivo da Via é monetizar esses créditos para pagar pelos processos trabalhistas. A monetização de valores tão expressivos envolve uma certa complexidade e para isso foi estruturado um plano que viabiliza a operação, portanto o montante esperado deve ser suficiente para pagar pelos processos judiciais sem uso de caixa adicional.
Todo voo tem turbulência!
Enxergamos esse passivo trabalhista como um grande empecilho, uma vez que considerávamos que esses benefícios fiscais seriam exclusivamente utilizados para sustentar seu crescimento, especialmente em um ambiente extremamente competitivo, em que as margens continuaram pressionadas no curto prazo. Atualizando nossos números para refletir o cenário atual e o cenário macro ainda bastante adverso, resultando em um aumento significativo da taxa de desconto, além de adotarmos uma postura mais conservadora no crescimento da companhia devido a alta competitividade no setor, estamos reduzindo nosso preço alvo para R$ 12/ação mas seguimos com a recomendação de COMPRAR.
Importante reiterarmos que aos preços atuais, nossa recomendação implica em um potencial de valorização de 70%, mas ele não vem sem os seus riscos. Seguimos acreditando que a empresa negocia a múltiplos extremamente atrativos e apresenta boas perspectivas de crescimento com a evolução do banQi, crescimento do marketplace e oferta do crediário aos sellers da plataforma. Entretanto, no cenário atual a Via perdeu certa credibilidade no mercado e apresenta várias incertezas quanto ao seu futuro. Recomendamos aos investidores levarem esses riscos em consideração, assumindo posições não tão representativas no portfolio.
Pontos Positivos
- Marketplace. Grande destaque do trimestre, atingindo 108k sellers e 34 milhões de SKU’s (Unidade de Estoques). GMV 3P superou a marca dos R$ 2 bilhões, implicando no crescimento de 133% a/a.
- banQi. Expansão das soluções financeiras através do banQi, sendo que apenas neste tri, tiveram +2,7 milhões de downloads; +1,0 milhão de contas abertas e +1,4 bilhão de TPV.
- Crediário. Crediário segue sendo um grande diferencial. Mesmo com a queda de vendas nas lojas físicas, a carteira do crediário cresceu 37% a/a para R$ 4,9 bilhões.
- Malha logística. Serviço de logística segue melhorando. Entrega em 24h já alcança 92% do PIB nacional, incluindo leves e pesados. Desde jan/20 eles triplicaram a penetração da malha própria, atingindo 56% de todas as entregas neste tri.
- NPS. Evolução do NPS em todas as marcas, atingindo 75 na Via.
Pontos Negativos
- Provisão Trabalhista. Aumento expressivo da provisão, impactando aproximadamente R$ 1 bilhão no EBITDA e R$ 810 milhões no lucro.
- Lojas físicas. Sofrendo o impacto econômico, o segmento registrou queda de receita de 16,6% a/a e de 13,8% de ‘vendas mesmas lojas’.
- Macro. Cenário macroeconômico adverso, com juros e inflação em patamares bem elevados, impactando crescimento e rentabilidade futura.