Conclusão
Seguimos com a recomendação de COMPRA para AXIA3. A empresa entregou resultado acima das nossas estimativas e em linha com o consenso. Em linhas gerais, gostamos do que vimos no trimestre: melhor precificação do portfólio de geração, linha de custos gerenciáveis evoluindo abaixo da inflação, venda de ativo non-core/simplificação do portfólio e outros. Aos atuais níveis de preço: I) vemos a empresa negociando com uma TIR implícita de 10% em termos reais, II) expectativa de rendimento de dividendos em c. 10% para 2026 – ou até mais, considerando o baixo endividamento, III) EV/EBITDA 26E 6,0x. Sendo assim, seguimos considerando a empresa como Top Pick no setor de energia.
Dança das Cadeiras. Outro ponto relevante do trimestre foi a transição na liderança executiva da companhia, com a saída de Ivan Monteiro do cargo de CEO e a nomeação de Elio Wolff para a posição. Em nossa interpretação, a mudança ocorre em um contexto de encerramento do Acordo de Acionistas e do ADI (Acordo de Investimentos) firmado no processo de capitalização e privatização da companhia, marcando uma nova etapa de maior independência na governança corporativa da AXIA. Apesar da troca de comando, entendemos que a transição tende a ocorrer de forma relativamente suave, dado que Elio Wolff já integrava a estrutura da empresa.
Resultado 1T26
Receita. A AXIA reportou receita operacional líquida regulatória de R$ 11,6 bilhões no 1T26 (+22,1% a/a), impulsionada principalmente pela forte expansão da receita do segmento de geração, que atingiu R$ 9,4 bilhões (+35,3% a/a), mais do que compensando a retração da transmissão (-3,3% a/a). O desempenho reflete o impacto do processo de descotização da empresa (aquele que substitui a energia que era vendida a preço de custo por preço de mercado) em meio a um momento de preços de energia no mercado de curto e longo prazo mais elevados (para maiores detalhe, leia a nossa atualização Axia (AXIA3) | Migração para o Novo Mercado! O que achamos disso?) – para fins de comparação, a energia de longo prazo está em R$240/MWh atualmente vs R$100-150/MWh nos últimos anos. Na transmissão, a receita regulatória sofreu impacto da provisão de R$ 725 milhões relacionada aos ativos e passivos de restituição regulatória. Embora tenha reduzido a receita líquida do segmento no trimestre, entendemos que o efeito possui natureza predominantemente contábil e regulatória, sem impacto caixa imediato.
Drivers: volume, contratos e preços. O trimestre foi fortemente beneficiado pela dinâmica comercial da geração. A receita com vendas no Mercado de Curto Prazo (MCP) atingiu R$ 4,6 bilhões (+679,6% a/a), enquanto a margem de contribuição do Ambiente de Contratação Livre (ACL) + MCP avançou para R$ 4,6 bilhões, contra apenas R$ 899 milhões no 1T25. A margem unitária saltou de R$ 36/MWh para R$ 171/MWh. O principal driver foi a combinação entre: I) maior volume de energia disponível após a descotização, II) PLD significativamente mais elevado, III) melhora dos spreads entre submercados, IV) redução da necessidade de compra estrutural de energia. Apesar da queda dos volumes vendidos no ACL (-25,3% a/a), os preços médios cresceram 28,1% a/a, para R$ 193/MWh. Isso evidencia que a companhia optou por uma estratégia mais oportunística de alocação de energia, privilegiando exposição ao MCP diante de um ambiente hidrológico e de preços mais favorável. Outro ponto relevante foi a forte redução da exposição às térmicas após os desinvestimentos concluídos em 2025. A ausência da contribuição térmica reduziu volatilidade operacional, consumo de combustível e risco de despacho, ao mesmo tempo em que melhora a qualidade estrutural do EBITDA da companhia.
EBITDA. O EBITDA regulatório ajustado atingiu R$ 8,6 bilhões (+60,0% a/a). A margem EBITDA ajustada expandiu de 56% para 74%, um movimento bastante expressivo e que evidencia a forte alavancagem operacional do portfólio hídrico da companhia. O avanço do EBITDA foi sustentado principalmente por: I) crescimento da margem de contribuição da geração, II) queda de 71,6% das provisões, III) redução de PMSO e IV) maior contribuição das participações societárias. Do ponto de vista estratégico, o trimestre reforça uma característica importante da AXIA: a capacidade de transformar melhora de cenário hidrológico e comercial em geração operacional incremental de maneira muito eficiente. A estrutura de custos relativamente fixa da companhia amplia significativamente a sensibilidade do EBITDA às condições de preço e alocação de energia.
Custos Operacionais. Os custos e despesas ajustados recuaram 18,6% a/a, para R$ 6,1 bilhões. O destaque foi a forte redução de: I) compra de energia para revenda (-28%), II) encargos de uso da rede (-8,9%); III) combustível para geração (-99,7%) e IV) PMSO (-3,1%). A queda do PMSO evidencia avanço consistente da agenda de eficiência operacional da companhia ainda não acabou. A companhia segue avançando na mitigação de contingências judiciais e regulatórias, especialmente ligadas ao empréstimo compulsório, reduzindo gradualmente um dos principais riscos históricos da tese.
Resultado Financeiro e Endividamento. O resultado financeiro ajustado permaneceu negativo em R$ 3,1 bilhões, embora tenha apresentado melhora de 5,0% a/a na visão regulatória ajustada. O trimestre ainda reflete o elevado nível absoluto de endividamento da companhia, parcialmente compensado pela melhora relevante do custo médio da dívida. A dívida líquida encerrou o trimestre em R$ 46,0 bilhões, praticamente estável frente ao 4T25 (-0,9% t/t), com alavancagem de 1,8x Dívida Líquida/EBITDA ajustado (queda vs 4T25). O custo médio caiu de CDI +0,15% para CDI +0,03%, enquanto o prazo médio permaneceu elevado em 54,5 meses.
Lucro Liquido. O lucro líquido regulatório ajustado atingiu R$2,9 bilhões, revertendo o prejuízo ajustado do 1T25. O avanço foi impulsionado por: I) forte melhora operacional da geração, II) ausência de remensuração regulatória negativa vista no 1T25; III) menor despesa financeira, IV) maior resultado de participações societárias; V) menor PMSO e provisões. Mesmo com aumento expressivo da despesa tributária corrente, o lucro apresentou recuperação substancial. Mais importante do que o número absoluto, entendemos que o trimestre mostra melhora relevante na qualidade do resultado, com menor dependência de efeitos extraordinários e maior participação de geração operacional recorrente.
Investimentos. Os investimentos somaram R$ 1,36 bilhão (+36,2% a/a), com forte aceleração nos projetos de transmissão. O destaque foi o avanço dos investimentos em ampliação, que cresceram de R$ 54 milhões para R$ 263 milhões. A companhia atualmente possui: I) 286 projetos de transmissão em implantação; II) RAP incremental estimada em R$ 2 bilhões entre 2026-2030 e III) CAPEX estimado de R$ 15,1 bilhões. Esse pipeline representa um dos principais gatilhos estruturais da tese. Em transmissão, crescimento de RAP tende a possuir elevada previsibilidade e baixa volatilidade operacional, além de carregar retornos reais atrativos quando executado com disciplina de CAPEX. A expansão do portfólio deve elevar gradualmente o peso da transmissão dentro do mix consolidado da companhia, reduzindo volatilidade e aumentando previsibilidade de caixa.
Projetos em Desenvolvimento e Gatilhos de valor. Entre os principais gatilhos estratégicos, destacamos: I) expansão do portfólio de transmissão, II) captura gradual da descotização das hidrelétricas; III) simplificação societária; IV) migração para o Novo Mercado; V) monetização de ativos não estratégicos; VI) redução contínua do passivo ligado ao empréstimo compulsório e VII) melhora estrutural do custo da dívida. Além disso, o arremate de 190 MW no LRCAP 2026 adiciona opcionalidade relevante de crescimento de longo prazo, reforçando a exposição da companhia ao tema de potência e confiabilidade do sistema elétrico brasileiro. Em um sistema cada vez mais pressionado pela intermitência renovável, ativos capazes de fornecer flexibilidade e capacidade firme tendem a ganhar relevância econômica crescente.

