Em janeiro de 2026, os dados do Banco Central do Brasil (Bacen) indicaram uma leve desaceleração no crescimento do crédito, enquanto o movimento de deterioração da qualidade dos ativos continuou ganhando força, com destaque para a nova máxima histórica da inadimplência rural, revertendo o alívio pontual observado em dezembro.
As concessões com recursos livres somaram R$ 659,8 bilhões, recuando -15,0% m/m mas avançando +10,8% a/a. O desempenho no mês foi reflexo das operações com pessoas físicas (PF), que recuaram -6,1% m/m, e principalmente pelas concessões a pessoas jurídicas (PJ), que caíram -25,8% m/m.
As concessões com recursos direcionados totalizaram R$ 58,1 bilhões, com queda de -32,9% m/m mas crescimento de +20,9% a/a. A piora do desempenho sequencial no mês foi impulsionada pelas operações com pessoas físicas, que tiveram retração de -20,7% m/m, puxadas por financiamento imobiliário e crédito rural. O segmento de empresas mostrou queda ainda mais representativa, de -45,2% m/m, impactado principalmente pelo crédito rural e recursos do BNDES.
Concessões: Recuo mensal, desaceleração do crescimento anual
As concessões de crédito totalizaram R$ 718 bilhões em janeiro, com recuo de -16,8% m/m e crescimento de +11,5% a/a, desacelerando frente ao forte avanço de dezembro (+15,7% a/a). A queda sequencial é típica do início do ano, mas a perda de fôlego na comparação anual sugere maior cautela das instituições na originação, diante do ambiente de incerteza macroeconômica e da deterioração dos indicadores de qualidade.
Spreads e Juros: Alargamento com queda na captação
O spread bancário médio avançou para 21,9% (+0,7 pp m/m; +3,5 pp a/a), refletindo o aumento da taxa de empréstimo e o recuo do custo de captação mensal.
Crédito: Leve desaceleração
O segmento de crédito às famílias foi o responsável pelo leve desaceleração observada no mês: a linha avançou +11,1% a/a em janeiro versus +11,7% a/a em dezembro. O movimento do segmento empresarial compensou parcialmente a dinâmica do mês: o estoque cresceu +8,3% a/a no primeiro mês de 2026 versus +8,1% a/a no mês anterior.
Market Share: Privadas perdem levemente, públicas ganham espaço
Em janeiro, as instituições privadas nacionais tiveram participação de 45,2% do crédito total (-0,2 pp m/m; +1,6 pp a/a). Já as instituições públicas (ex-BNDES) registraram leve ganho de participação, com market share de 33,6% (+0,4 pp m/m; -0,9 pp a/a).
Endividamento e Comprometimento de Renda: Continuou alta
O endividamento das famílias atingiu 49,7% ao final de 2025, após aumento de 1,3 pp a/a. O comprometimento de renda atingiu 29,2% em 2025, com variação positiva de 1,7 pp a/a.
Crédito: Leve recuo, puxado pelas operações PJ
O saldo total de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) recuou -0,2% m/m em janeiro, alcançando R$ 7,1 trilhões, com o crescimento apresentando desaceleração para +10,0% a/a (vs. +10,3% em dezembro).
O desempenho negativo no mês foi justificado pelas operações com pessoas jurídicas (PJ) que somaram R$ 2,7 trilhões (-1,7% m/m), enquanto o saldo de crédito às pessoas físicas (PF) mostrou um leve crescimento (+0,7% m/m), em R$ 4,5 trilhões. Na comparação anual, o crédito às famílias cresceu +11,1% a/a (vs. +11,7% em dezembro), enquanto crédito às empresas apresentou aceleração, crescendo +8,3% a/a (vs. +8,1% em dezembro).
O estoque de crédito com recursos livres totalizou R$ 4,1 trilhões, com redução de –0,9% m/m e alta de +8,2% a/a. A queda no mês foi puxada por Pessoas Jurídicas (-3,1% m/m), enquanto Pessoas Físicas apresentou leve crescimento (+0,5% m/m).
O crédito livre para PF somou R$ 2,5 trilhões, com avanço de +0,5% m/m e +12,4% a/a. O crescimento no mês foi impulsionado pelas modalidades de cheque especial (+7,3% m/m) e cartão de crédito rotativo (+3,4% m/m). Destacamos também o forte avanço do crédito consignado privado (+8,6% m/m), produto relançado ano passado, que já atingiu uma carteira de R$ 83,2 bilhões (+104,3% a/a).

Já o crédito livre para PJ totalizou R$ 1,6 trilhão, apresentando decrescimento no mês (-3,1% m/m e +2,3% a/a). O resultado refletiu a queda em desconto de duplicadas (-16,7% m/m) e cartão de crédito total (-7,7% m/m), parcialmente compensadas pela alta no cheque especial (+10,2% m/m).
Inadimplência: Deterioração com agro revertendo o alívio
A inadimplência total do Sistema Financeiro Nacional (SFN), considerando os atrasos superiores a 90 dias, atingiu 4,25% em janeiro, com alta de +0,22 pp m/m e +1,06 pp a/a, dando sequência à trajetória de deterioração da qualidade da carteira de crédito, como havíamos apontado por conta da alta da taxa básica de juros.
No crédito livre, o índice de inadimplência avançou para 5,5% (+0,17 pp m/m e +1,10 pp a/a), refletindo a piora tanto nas operações com pessoas físicas quanto com pessoas jurídicas. Na carteira de PF, o indicador subiu para 7,0% (+0,1 pp m/m e +1,4 pp a/a) — maior nível desde 2013. Já nas operações com PJ, a inadimplência atingiu 3,35%, com alta de +0,2 pp m/m e +0,5 pp a/a.
No crédito direcionado, a inadimplência apresentou um alta sequencial de +0,3pp pp m/m, mas com avanço anual de +0,8 pp a/a. A inadimplência do crédito rural volta a crescer, +0,8 pp m/m, alcançando o maior nível da série histórica (desde 2011), 7,3%. A inadimplência curta (15 a 90 dias), por outro lado, melhorou sequencialmente no segmento rural, atingindo 2,2% em dezembro (-0,4 pp m/m; +0,8 pp a/a).








